Texto de Kiki Garavaglia
Eu estava indo para o sul da Córsega com meus cunhados e um casal de amigos quando, conversando com uma amiga francesa — Marie Laure, em Paris — ela perguntou se não queríamos passar uns dias na casa que a família dela tinha no norte da ilha. Uma propriedade do século XVII, antiga fábrica de azeite, ainda com a roda de esmagar azeitonas. Topamos na hora. E realmente foi uma surpresa: ali o tempo não tinha passado. Nada havia mudado em séculos. A cidade ainda era dominada pela máfia corsa!
Fomos ao aeroporto e, para nossa surpresa, lá estava Marie Laure nos esperando… perguntando se poderíamos levar um biombo. Enorme! Para a casa dela! Chegamos ao aeroporto de Bastia e tivemos que alugar um carro grande, com porta-malas generoso, para acomodar aquele trambolho. Subimos por estradinhas minúsculas até finalmente chegarmos à propriedade.
Que surpresa linda! Toda de pedra, no topo de uma montanha, com vista para um campo cheio de flores, ovelhas e cabritos. A caseira — muito animada e tipicamente íntima — nos instalou, preparou um almoço típico delicioso e nos levou para conhecer a cidade, anunciando para todos os vizinhos, aos berros, que éramos brasileiros, com o maior orgulho! A língua corsa é complicada, a maioria das palavras não possui vogais, e nós não entendíamos absolutamente nada.
Na cidade, só havia homens nas ruas. As mulheres observavam tudo pelas janelas. Perguntamos o motivo e a caseira explicou que mulheres não andavam pelas ruas ali. Ficamos em choque. Paramos num bar para tomar um café e todos nos olhavam curiosos. Depois descobrimos o motivo: mulheres não usavam calças compridas e nem entravam em bares! Um “sacerdote”, de bata, se apresentou e explicou que todos estavam escandalizados. Logo depois, descobrimos: ele era o chefão da máfia local. E se ofereceu para nos mostrar a cidade — e, pasmem, era realmente um encanto!

No dia seguinte, convidamos nossa caseira, Jackie, para nos levar ao melhor restaurante da cidade. Chamava-se “U Rataghju”, que significa “castanheiro”, onde se secavam castanhas antigamente. O lugar era um charme: todo de pedras, como uma caverna, com pequenas salas e toalhas em xadrez vermelho. O vinho local era excelente, assim como o cabrito, a carne de javali e uns morangos com creme simplesmente divinos!

No outro dia, Marie Laure sugeriu irmos até a cidadezinha de Murato, no restaurante e fazenda de uma prima dela chamado “La Ferme Campo di Monti”. O caminho era lindo. Cruzamos com vários motoqueiros estilo “Hell’s Angels” nos dando tchau — super simpáticos! E, para nossa surpresa, todos iam para o mesmo restaurante. Lindo, também feito de pedra, com comida maravilhosa: bolinhos de queijo, charcuterie, o vinho doce incrível “Cap Corse”, e uma compota de figo com requeijão de ovelha inesquecível. A louça era linda, o atendimento acolhedor… e o almoço, simplesmente memorável.
Uma viagem inesquecível — e também um almoço inesquecível!
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