Há uma diferença silenciosa entre mudar de carreira e recomeçar em outro país. Mudar pode ser escolha. Recomeçar, muitas vezes, é realidade.
Janine Martins Figueiredo construiu uma carreira sólida na área de marketing no Brasil. Tinha experiência consolidada, posição de gestão, relacionamento com executivos de alto nível e uma rede profissional construída ao longo de anos. Quando se mudou para os Estados Unidos por conta da transferência profissional do marido, não trouxe apenas malas — trouxe repertório, bagagem e uma trajetória consistente. Mas trouxe também um desafio comum a muitos profissionais brasileiros que vivem esse movimento: começar de novo, em outro idioma, em outra cultura e em um mercado onde o acesso às oportunidades funciona de forma diferente.
O que chama a atenção na história da Janine não é apenas a decisão de recomeçar, mas a forma como ela encarou o processo. Em vez de tratar a recolocação como uma sequência de tentativas isoladas, ela optou por estruturar sua carreira como um projeto. Reconheceu limitações momentâneas — especialmente no idioma e na ausência de networking local — e tomou decisões estratégicas, inclusive aceitando um passo atrás para construir novos degraus.
Em nossa conversa revela algo que raramente aparece nas narrativas romantizadas sobre carreira internacional: o recomeço exige adaptação emocional, humildade estratégica e método. Exige entender que competência técnica continua valiosa, mas que idioma, contexto cultural e rede de contatos são ativos tão importantes quanto qualquer título anterior.
Ao longo da entrevista, Janine compartilha reflexões honestas sobre o mercado americano, as diferenças culturais, os ajustes necessários e o que realmente faz diferença para um profissional brasileiro que decide reconstruir sua trajetória nos Estados Unidos.
Mais do que uma história sobre mudança geográfica, esta é uma conversa sobre maturidade profissional, estratégia e a coragem de recalibrar expectativas sem perder ambição.
O que mais te motivou a buscar essa mudança de carreira nos EUA: oportunidade, necessidade, propósito ou combinação dos três?
No meu caso, não foi bem uma mudança de carreira, e sim um recomeço aqui nos Estados Unidos. No Brasil, eu já possuía uma carreira consolidada, um bom network e, quando me mudei para os Estados Unidos, devido a uma transferência de trabalho do meu marido, eu vim com um nível de inglês mediano, que não me permitia dar continuidade à minha carreira no mesmo nível em que eu já estava no Brasil. Procurei a Carol para que ela me ajudasse a entender as minhas reais oportunidades aqui e como me adaptar para dar sequência à minha carreira na área de marketing.
Qual foi o maior choque profissional que você sentiu ao entrar no mercado de trabalho americano?
Eu não senti um choque muito grande com o mercado americano, mas, sem dúvida, a gente sente a diferença em relação ao tempo de folga/férias. Para todo brasileiro, os 30 dias de férias são normais e desejados, e aprendemos a nos desconectar bem do trabalho neste período. Aqui, o padrão é duas semanas por ano, normalmente tiradas aos poucos, o que faz com que a gente não se desligue totalmente do trabalho ao longo do ano.
Algo que funcionava muito bem na sua carreira anterior deixou de funcionar aqui?
Várias coisas. Como sou da área de comunicação, no Brasil já estava num nível de gestão elevado e tinha muita tranquilidade e naturalidade para trabalhar com executivos de qualquer nível, do CEO ao assistente. Aqui, a língua ainda tem sido um desafio. Apesar de me sentir fluente, não tenho a mesma maturidade para liderar reuniões ou me expressar mais naturalmente em todos os níveis, o que é natural, eu imagino, e é onde procuro melhorar no meu dia a dia. Outro ponto são as relações, os vínculos que você cria ao longo da sua carreira, o que faz com que você construa um bom network com o tempo. Aqui a gente começa do zero, o que dificulta o acesso a boas oportunidades.
O que mais te surpreendeu na forma como as empresas e os recrutadores avaliam profissionais nos EUA?
Confesso que não senti muita diferença no processo em si. Acredito que o nível de profissionalismo das avaliações varia de empresa para empresa, assim como no Brasil. Algumas investem mais e promovem um processo mais cuidadoso, enquanto outras conduzem o processo de maneira mais informal. A grande diferença, para mim, é a falta de acesso a recrutadores e headhunters por parte do empregado. Esses serviços aqui nos Estados Unidos são basicamente destinados ao empregador, deixando uma pessoa que busca um emprego sem o apoio profissional necessário.
Em que momento você percebeu que precisava tratar sua carreira como um projeto, e não como uma sequência de tentativas?
Eu sempre gostei de ter apoio profissional em algumas áreas da minha vida e sempre fui assim na hora de me recolocar. Aqui nos Estados Unidos, sem um bom network, a busca solitária por uma oportunidade não costuma funcionar muito bem. Perde-se muito tempo, muita energia e muitas oportunidades. Ter um profissional te ajudando neste processo é essencial aqui, especialmente se você se encontra na mesma situação e não tem um bom network.
Houve alguma decisão estratégica que mudou completamente o rumo da sua trajetória por aqui?
Tive que dar um passo atrás e buscar uma vaga um pouco abaixo do meu nível para recomeçar, mas não considero uma estratégia de mudança radical, e sim uma adaptação à minha realidade vivendo aqui nos Estados Unidos. Aos poucos, venho retomando o crescimento.
Quais competências você desenvolveu nos EUA que provavelmente não teria desenvolvido em outro mercado?
Não sei dizer, para ser sincera. Acho que, como profissionais, temos sempre que evoluir e nos preocupar em desenvolver novas competências. Não sei se precisei desenvolver algo específico para o mercado americano, além do idioma, é claro. Mas uma coisa que acho legal aqui é o multiculturalismo: a gente aprende a conviver com pessoas de todo o mundo, e acho que isso enriquece muito o ambiente profissional, fazendo com que também ampliemos nosso próprio universo.
O que mudou na sua relação com trabalho, carreira e sucesso?
Uma coisa que sinto aqui é que tenho muito mais qualidade de vida quanto ao equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. Aqui há maior respeito aos horários, sendo possível encerrar o seu turno no horário adequado e não ser necessário estender horas extras. No Brasil, trabalhar com comunicação, especialmente em agências, é uma vida meio desregulada, com muitas horas extras. Aqui consigo programar o meu dia, sabendo que conseguirei sair no horário planejado. Eu considero isso um passo para o sucesso, pois ele não está ligado apenas à quantidade de dinheiro que você conquista, mas também à forma como você escolhe viver e compartilhar a vida.
Se você pudesse dar um conselho para um profissional brasileiro em transição de carreira nos EUA, qual seria?
Contrate um profissional para te ajudar; não se aventure sozinho. As oportunidades são inúmeras, mas é preciso saber como alcançá-las corretamente.
O que definitivamente não fazer nesse processo?
Tentar se recolocar sem ajuda. Infelizmente, não basta enviar seu currículo para as vagas e depender da sorte. É desgastante, frustrante e desnecessário. Busque ajuda.
O que você aprendeu que gostaria de ter sabido no início?
Como busquei ajuda logo no início, não cheguei a me frustrar. Acredito que tomei a decisão certa ao buscar ajuda profissional, que foi essencial para me recolocar em uma vaga que combina comigo e que era exatamente o que eu buscava.
A trajetória da Janine deixa claro que recomeçar não é sinônimo de retroceder. É reconhecer o contexto, ajustar expectativas e agir com estratégia. Nem toda mudança precisa ser dramática para ser transformadora. Às vezes, o crescimento acontece justamente na decisão silenciosa de estruturar o processo com método, apoio e consciência.
Sua história também revela algo importante para quem vive uma transição internacional: competência não desaparece na mudança de país, mas precisa ser reposicionada. Idioma, cultura e networking se tornam parte da equação, e tratá-los com a mesma seriedade com que se trata qualquer projeto profissional faz toda a diferença.
No fim, o que mais se destaca não é apenas a recolocação em si, mas a forma como ela aconteceu. Com planejamento, adaptação e visão de longo prazo. Porque, em qualquer mercado, carreira não é uma sequência de tentativas aleatórias — é construção.
E, como a própria Janine reforça, ninguém precisa construir sozinho.
Carolina Melo Leitao
https://www.linkedin.com/in/carolinameloleitao
carolina.leitao@ictcarreiras.com

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
