Por Dra. Leticia Sangaletti
É muito comum chegarmos para captações audiovisuais para as redes sociais de nossos clientes e termos de lutar contra a “decoreba”. Profissionais exímios e excelentes em suas áreas, nem sempre têm a mesma habilidade diante das câmeras e acabam por querer recorrer ao teleprompter ou ao texto decorado. Eu discordo e busco sempre uma via mais espontânea para as gravações, prefiro uma fala natural, mesmo que tenha algum vício de linguagem, do que uma engessada, decorada, lida.
Vivemos um momento em que comunicar está sendo muito associado e até mesmo confundido com performar, e acredito que isso se dê muito pela ascensão das redes sociais, que aceleram o ritmo de todos nós e promoveram uma estética discursiva que valoriza ainda mais a forma do que o conteúdo, embora haja um esforço expressivo para inverter esta ordem. Mesmo assim, creio que a comunicação genuína, que convence, transforma e, sobretudo, toca e sensibiliza, não vem dessa performance decorada, mas sim, da presença sentida.
O que quero dizer é que tu não precisas decorar, tens de acreditar no que estás dizendo. Entender que uma comunicação potente e posicionada não nasce de algo raso ou da superfície, mas da profundidade que quem a sustenta. Por isso nas mentorias de oratória, procuro fazer com que as pessoas acessem sua verdade interna, pois entendo que falar bem não é apenas dominar a técnica, mas ter uma fala potente e cheia de presença, que carregue contradições, convicções e afetos, que não cabem em roteiros, mas que o nosso corpo expõe.
Amy Cuddy (2015), descreve presença como o estado em que nos sentimos inteiros, conectados com nossos valores, e somos capazes de expressar isso com autenticidade. É quando deixamos de atuar e começamos, de fato, a nos comunicar. Nesse lugar, o que importa não é a perfeição da fala, mas a integridade de quem está falando.
Se buscarmos embasamento na ciência, veremos que a comunicação não é uma performance vazia, mas “presença cheia”, já que pesquisas em neurociência mostram que nosso cérebro identifica sinais de incoerência entre o verbal e o não verbal. A amígdala, responsável pelas respostas emocionais, e o córtex pré-frontal medial, que processa julgamentos sociais, são ativados quando algo “não bate” na comunicação (Iacoboni, 2009). Ou seja, a pessoa com quem conversamos, ou quem está nos assistindo, nos vendo, percebe quando a fala não corresponde à emoção.
Não à toa, Brené Brown (2012) afirma que as pessoas se conectam com a verdade, não com a perfeição. A vulnerabilidade, longe de ser um risco, é o que cria ponte, e a comunicação mais eficaz é sempre a mais humana (ou quase sempre).
Para falar bem, comece a sentir bem, alinhe cabeça, peito e voz. Isso mesmo: A cabeça organiza o raciocínio, o peito dá sentido e emoção, e a voz traduz tudo isso para o mundo. Essa tríade é a base da comunicação consciente e quando há coerência entre pensar, sentir e expressar, a escuta se abre. Agora, quando esses três pontos estão desalinhados, a fala acaba perdendo força.
Por isso, comunicar com presença exige, antes de tudo, escutar a si mesmo, o que possibilita que a espontaneidade e autenticidade ganhem espaço. Num mundo onde até os sentimentos são algoritmizados, a autenticidade virou diferencial competitivo. Mas mais do que um diferencial, ela é um antídoto contra a comunicação automatizada, previsível e descartável.
Então, se tu vais gravar um vídeo para as tuas redes, esteja presente, conheça a ti mesmo e fale de forma que as pessoas se sintam abraçadas por ti. Elas não se lembram das palavras exatas que tu usaste, mas de como tu fizeste as sentir. Isso só acontece quando há presença.
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