Por Dra. Mônica Martellet — Farmacologista e Esteta, PhD em Biotecnologia em Saúde, CEO da Clínica Dra. Mônica Martellet Estética Avançada, Professora Universitária e colunista da Florida Review (Miami).
Durante algum tempo, o GHK-Cu foi tratado quase como um ativo de promessa infinita dentro da cosmetologia. Bastava citar seu nome para que ele fosse imediatamente associado a rejuvenescimento, crescimento capilar, reparo tecidual e até longevidade cutânea. Mas, quando um princípio ativo começa a ser cercado por marketing demais, torna-se ainda mais necessário devolver a discussão ao seu lugar de origem: a biologia. O GHK-Cu é um tripeptídeo naturalmente relacionado ao cobre, formado por glicina, histidina e lisina, conhecido na nomenclatura cosmética internacional como Copper Tripeptide-1. Ele foi estudado inicialmente por sua presença fisiológica em fluidos humanos e, ao longo das décadas, passou a chamar atenção por seu potencial em reparo tecidual, modulação inflamatória e reorganização da matriz extracelular. O ponto mais importante, no entanto, é entender que seu verdadeiro valor não está em uma promessa genérica de “rejuvenescer”, mas em sua capacidade de atuar como sinalizador biológico em contextos nos quais a pele precisa reparar, reorganizar e responder melhor ao dano.
Do ponto de vista mecanístico, o GHK-Cu não deve ser lido apenas como um ativo estimulador de colágeno. Essa simplificação empobrece o que a literatura mostra. O peptídeo está ligado a efeitos sobre remodelação da matriz extracelular, síntese da proteína de colágeno, elastina e glicosaminoglicanos, além de participar de vias relacionadas à cicatrização, angiogênese, defesa antioxidante e modulação de mediadores inflamatórios. Em outras palavras, não se trata apenas de “preencher” ou “firmar” a pele por um mecanismo isolado, mas de favorecer um ambiente fisiológico mais potente para regenerar com qualidade.
Esse ponto é decisivo porque muitos ativos antiaging tentam produzir um resultado visual rápido sem necessariamente melhorar a fisiologia do tecido. O GHK-Cu se diferencia justamente por ter sido estudado em uma lógica mais regenerativa do que meramente cosmética. Há trabalhos mostrando ação em reparo de feridas, melhora da organização do tecido lesionado e redução de estresse oxidativo, além de potencial benefício em modelos de dano inflamatório. A literatura também descreve sua participação na homeostase da matriz extracelular, com equilíbrio entre síntese e degradação de componentes estruturais. Isso é especialmente relevante na pele fotoenvelhecida, na pele inflamada de forma crônica e em contextos de recuperação pós-agressão cutânea.
Quando observamos os dados clínicos em pele, o cenário mais honesto é o seguinte: existem sinais promissores, mas não estamos diante de um ativo com o mesmo volume de evidência clínica robusta que já existe para alguns retinoides ou para determinados procedimentos estéticos. Ainda assim, os estudos humanos citados em revisões importantes são relevantes. Em ensaios clínicos com pele fotoenvelhecida, formulações tópicas com GHK-Cu mostraram melhora de flacidez, linhas finas, textura, densidade e aspectos globais de fotodano. Esse dado posiciona o GHK-Cu não como substituto absoluto de outros ativos consagrados, mas como um peptídeo biologicamente interessante dentro de estratégias de reparo, manutenção e envelhecimento cutâneo saudável.
Na tricologia, o interesse internacional também cresceu. O peptídeo aparece em formulações voltadas ao couro cabeludo por seu possível papel sobre microambiente folicular, inflamação e suporte à atividade da papila dérmica. Parte da literatura sugere benefício em crescimento capilar e em protocolos complementares para alopecia, embora os dados ainda sejam heterogêneos. Isso reforça a necessidade de leitura crítica diante do entusiasmo comercial.
Fora do Brasil, o GHK-Cu é apresentado principalmente como ingrediente dermocosmético de uso tópico, identificado em rotulagem pela INCI Copper Tripeptide-1, sendo incorporado em séruns, produtos de recuperação de barreira e cosméticos regenerativos. Em paralelo, estudos investigacionais vêm explorando sistemas de entrega mais avançados, como lipossomas, nanopartículas e hidrogéis, buscando melhorar sua biodisponibilidade cutânea.
No Brasil, o ponto central não é perguntar se o GHK-Cu funciona, mas como ele pode ser utilizado dentro do enquadramento sanitário correto. A Anvisa reconhece o ingrediente dentro da nomenclatura cosmética, porém não o enquadra como substância injetável em produtos cosméticos. Isso significa que seu uso deve respeitar a via tópica dentro de formulações regularizadas, sendo inadequado e não respaldado seu uso em abordagens invasivas dentro do escopo cosmético.
É nesse contexto que o GHK-Cu encontra seu verdadeiro espaço clínico: como ativo de suporte biológico em protocolos de home care avançado, manutenção da qualidade da pele e estratégias regenerativas não invasivas. Ele não substitui bioestimuladores injetáveis, mas pode complementar abordagens que buscam melhorar o microambiente cutâneo e a resposta regenerativa da pele ao longo do tempo.
Referências científicas recentes (2022–2025) incluem estudos publicados em periódicos como International Journal of Molecular Sciences, Journal of Cosmetic Dermatology, Frontiers in Pharmacology e Bioactive Materials, abordando os mecanismos moleculares, aplicações clínicas e sistemas de entrega do GHK-Cu.
Algumas referências bibliográficas utilizadas:
- Iang S, et al. Synergy of GHK-Cu and hyaluronic acid on collagen IV upregulation via fibroblast activation. Journal of Cosmetic Dermatology. 2023.
- Ickart L, Margolina A. Regenerative and protective actions of the GHK-Cu peptide: new insights into gene expression modulation. International Journal of Molecular Sciences. 2022.
- Dou Y, et al. The potential of GHK as an anti-aging peptide: mechanisms and clinical perspectives. Advances in Pharmacological and Therapeutic Research. 2022.
- Mao S, et al. GHK-Cu promotes tissue repair through SIRT1/STAT3 signaling pathway modulation. Frontiers in Pharmacology. 2025.
- Zhang Y, et al. GHK-Cu peptide reduces inflammation and promotes tissue regeneration via cytokine modulation. Bioactive Materials. 2025.
- Wang L, et al. Advances in transdermal delivery systems of copper peptides for skin regeneration. Molecules. 2024.
- Li X, et al. Copper peptides in dermatology: mechanisms, delivery systems and clinical applications. International Journal of Molecular Sciences. 2024.
- Liu Y, et al. Nanotechnology-based delivery of GHK-Cu for enhanced skin regeneration and wound healing. Polymers. 2024.
