Existe um momento curioso em quase todo conflito. Ele costuma acontecer muito antes de qualquer discussão.
A outra pessoa ainda não respondeu à mensagem. Ainda não fechou a cara. Ainda não disse uma única palavra. Às vezes, nem imagina que está prestes a ocupar um papel importante na história que estamos escrevendo sobre ela.
Porque é isso que fazemos. Diante de um vazio, raramente esperamos. Nós o preenchemos.
Há algumas semanas uma amiga me ligou angustiada. Tinha mandado uma mensagem para outra amiga e, dois dias depois, ainda não havia recebido resposta. A princípio, aquilo lhe pareceu apenas estranho.
No primeiro dia ela se perguntou por que ainda não tinha recebido resposta. No segundo, começou a procurar uma explicação. No terceiro, já não tentava entender o silêncio da amiga. Buscava evidências. Voltou ao jantar, refez mentalmente algumas conversas, passou a enxergar intenções em frases que, até então, lhe pareciam perfeitamente banais. É curioso como a memória muda de função quando queremos que uma hipótese esteja certa. Em vez de lembrar, ela começa a tecer justificativas.
Foi então que me lembrei de uma história antiga.
Um homem precisava de um martelo. Lembrou que o vizinho talvez tivesse um e saiu de casa decidido a pedir emprestado. No caminho, pensou: “E se ele não emprestar?”. Logo depois veio outra ideia: “Na verdade… por que ele não emprestaria?”. Talvez não gostasse muito dele. Agora que pensava bem, outro dia o vizinho respondeu ao seu bom-dia de um jeito meio seco. Ou talvez nem tivesse respondido. É curioso como certas lembranças escolhem a hora de aparecer.
Quando finalmente chegou à porta, o vizinho abriu com um sorriso. Antes que conseguisse dizer qualquer coisa, o homem disparou:
— Fica com esse seu martelo. Não preciso dele.
Sempre achei graça dessa história. Hoje acho que ela é menos engraçada do que verdadeira.
Uma semana depois, minha amiga recebeu a resposta.
Duas fotos. Uma praia. Um surfista. Pele linda e recepcao ruim.
Nenhuma briga. Nenhum ressentimento. Nenhuma conversa interrompida.
Enquanto ela passava dias reconstruindo a cronologia da amizade, a outra simplesmente estava de férias.
Gostaria de dizer que ouvi tudo isso com a serenidade de quem jamais caiu na mesma armadilha.
Infelizmente, não seria verdade.
Também já escrevi histórias inteiras para pessoas que nunca chegaram a dizer a primeira fala.
Com o tempo, comecei a perceber que fazemos exatamente a mesma coisa na vida.
Os fatos costumam ser modestos. Quase sempre cabem em uma frase.
“Ela não respondeu.”
O resto escrevemos sem perceber.
É curioso como quase nunca escolhemos a versão mais generosa. Diante de um silêncio, nossa primeira hipótese dificilmente é que o outro esteja ocupado, cansado ou vivendo um problema que desconhecemos. Preferimos acreditar que existe uma mensagem escondida, uma intenção mal resolvida, um sinal que só nós fomos capazes de decifrar.
Talvez seja porque a incerteza incomoda. Talvez porque nossa mente prefira uma história imperfeita a uma página em branco.
O problema é que, quando finalmente encontramos a outra pessoa, descobrimos que ela quase nunca recebeu o roteiro que escrevemos para ela.
Desde então, passei a recorrer a uma pergunta sempre que percebo que uma conclusão chegou rápido demais:
O que mais poderia explicar isso?
Não para ser ingênua. Nem para negar conflitos reais. Alguns existem e precisam ser enfrentados.
Mas aprendi que muitos dos conflitos que mais nos desgastam nunca chegaram a acontecer. Foram apenas histórias extraordinariamente convincentes escritas por alguém que conhecemos muito bem.

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
