Quando você desaparece para que os outros existam.
Não era difícil gostar dele.
Eu o conheci na minha primeira experiência no mundo corporativo. Ainda hoje me lembro da impressão que ele causava. Estava sempre impecavelmente vestido. Era elegante sem parecer vaidoso, educado sem parecer protocolar e tinha uma atenção quase incomum aos detalhes. Fazia questão de cumprimentar todos pelo nome, escutava com interesse genuíno e parecia encontrar tempo para qualquer pessoa que cruzasse o seu caminho.
Como vendedor, era brilhante.
Na época, achei que aquilo fosse simplesmente talento.
Mas, depois de algum tempo, comecei a prestar atenção em uma curiosa sequência de coincidências.
Em poucos minutos, sempre surgia alguma afinidade inesperada.
Se o diretor puxava o assunto para política, descobria-se que pensavam de forma surpreendentemente parecida.
Bastava a conversa mudar para religião para ele comentar que andava lendo justamente sobre aquela tradição.
Se alguém mencionasse uma paixão por comida italiana… bem, era exatamente ali que ficava o restaurante preferido dele.
Vinhos.
Corrida.
Cinema francês.
Fotografia.
Arquitetura.
O assunto mudava.
As afinidades também.
E, quanto mais eu observava, mais aquele mar de afinidades inesperadas despertava a minha curiosidade.
Nada soava artificial.
Era justamente isso que mais me intrigava.
Era sutil demais para parecer estratégia.
Lembro de uma ocasião em que um executivo se aproximou dele com um sorriso aberto, a mão estendida e um agradecimento que, para quem assistia de fora, parecia desproporcional.
Só depois descobri o motivo.
Dias antes, ele havia ouvido, quase por acaso, que a esposa daquele executivo colecionava globos de neve.
Algumas semanas depois, ela recebeu um exemplar raro pelo correio.
Não era um presente caro.
Era um presente preciso.
Era impressionante o que ele sabia sobre as pessoas.
Detalhes que a maioria de nós esqueceria poucos dias depois permaneciam vivos na memória dele.
Mas o que realmente chamava a atenção era a forma como ele transformava essas pequenas informações em conexão.
O nome dos filhos.
A cirurgia do pai.
O vinho preferido de um cliente.
O hobby de outro.
A cidade onde um terceiro havia passado a lua de mel.
Durante muito tempo, achei que estivesse diante de uma inteligência social extraordinária.
E talvez estivesse.
Mas a convivência acaba revelando padrões que, no começo, passam despercebidos.
Foi exatamente o que aconteceu.
Depois de um tempo, eu já conseguia antecipar a próxima afinidade.
O assunto mudava.
Ela aparecia.
E eu me pegava pensando quantos daqueles pontos em comum realmente pertenciam a ele.
Existe uma diferença importante entre criar conexão e precisar dela.
Entre adaptar a linguagem para facilitar uma conversa e reorganizar a própria identidade para nunca produzir atrito.
A primeira é uma habilidade.
A segunda, às vezes, é apenas uma forma muito sofisticada de sobrevivência.
E talvez seja justamente aí que mora o perigo.
Porque existe um momento em que deixamos de usar o espelho para compreender quem está à nossa frente…
e começamos a usá-lo para esconder quem está atrás dele.

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
