Uma influenciadora negra descobriu que sua foto do US Open 2024 foi roubada, editada com inteligência artificial e repostada como se fosse a vida de outra pessoa — com geotag aqui em Miami
O Miami Open pode ter acabado, mas a polêmica que ele gerou fora das quadras segue muito viva. O que começou como um scroll rotineiro pelo Instagram se transformou em um debate viral sobre inteligência artificial, roubo de conteúdo e o apagamento contínuo do trabalho de mulheres negras no ambiente digital.
A modelo e criadora de conteúdo Tatiana Elizabeth descobriu recentemente que uma foto que ela havia publicado do US Open 2024 reapareceu no Instagram da influenciadora Lauren Blake, que conta com 1,6 milhão de seguidores. A publicação era praticamente idêntica: mesmo look, mesmos acessórios, mesmo ângulo — com a diferença de que Blake havia substituído o rosto de Elizabeth pelo seu próprio usando IA, e trocado a localização para Miami, como se tivesse estado no Miami Open. Para quem conhece os dois eventos, a tentativa de enganar seria ainda mais difícil de sustentar: o US Open tem como marca registrada as arquibancadas em azul marinho, enquanto o Miami Open, realizado no Hard Rock Stadium — casa do Miami Dolphins —, é caracterizado pelo tom turquesa que domina o complexo. São cenários visualmente inconfundíveis para qualquer fã de tênis.
“Bar a bar”, escreveu Elizabeth no post de denúncia que viralizou. “A parte mais estranha é que nem é uma influenciadora de IA. É uma pessoa real que usou IA para colocar a cabeça dela no meu corpo. Ela marcou Miami como se estivesse no Miami Open — quando minha foto foi tirada no US Open dois anos atrás.”
O que torna o caso ainda mais desconcertante é que Blake é moradora de Miami e apresenta nas redes um estilo de vida sofisticado. A pergunta que ficou no ar para muitos seguidores foi simples: por quê? Por que fabricar uma presença em um evento que aconteceu na sua própria cidade?
O escândalo tocou especialmente a comunidade que a Florida Review representa. O Miami Open é um dos eventos de tênis mais importantes do Sul da Flórida, acompanhado de perto por milhares de brasileiros que vivem aqui. A ideia de que alguém possa fabricar sua presença em um evento tão central para esta cidade, às custas da imagem de uma mulher negra, gerou uma reação imediata e intensa.
“Eu Não Vi a Imagem Original”
Depois de deletar a publicação sem dar nenhuma explicação, Blake finalmente se pronunciou. Nas mensagens privadas enviadas à Elizabeth, Blake admitiu que sua equipe estava experimentando ferramentas de IA no fluxo de produção de conteúdo, e que a imagem foi gerada por esse processo — sem que ela tivesse visto a foto original. Ela assumiu total responsabilidade e disse que a situação foi “um grande alerta”.
Blake também deixou claro que não sabia como lidar com a repercussão, chegando a consultar uma equipe de relações públicas antes de decidir escrever diretamente para Elizabeth: “Tudo que eles escreviam soava falso. Então vim falar com você diretamente.”
Elizabeth, no entanto, descartou o pedido de desculpas como pouco sincero, afirmando acreditar que Blake simplesmente quer que a situação esfrie para voltar à rotina.
Mais do que Roubo de Conteúdo
Muitas vozes nas redes foram rápidas em apontar o que o episódio representa além de uma simples violação de direitos autorais. Elizabeth afirmou que, historicamente, mulheres negras têm sido copiadas e usadas como “inspo”, e que o que aconteceu com ela faz parte de um padrão muito mais longo e estrutural.
A crítica toca em algo fundamental: as ferramentas de IA estão sendo usadas cada vez mais não apenas para criar, mas para apropriar — para pegar o corpo de alguém, seu ambiente, seu momento, e entregá-lo a outra pessoa. Quando esse padrão envolve consistentemente imagens de mulheres negras sendo filtradas por rostos brancos em nome de uma suposta maior “vendabilidade”, o que era um bug técnico passa a ser um problema muito mais sério.
O Que Vem Agora
Blake prometeu passar a aprovar pessoalmente todo o conteúdo antes de ir ao ar, e em nota pública disse estar profundamente arrependida pelo mal causado à criadora original e à comunidade.
Mas para Elizabeth — e para muitos que acompanharam o caso — o estrago não se resolve com um post deletado ou um pedido de desculpas bem formulado. A foto ficou no ar, foi vista por milhões de pessoas, e o momento que ela deveria celebrar foi roubado.
À medida que as ferramentas de IA se tornam mais rápidas, mais baratas e mais integradas aos “fluxos de trabalho” dos influenciadores, esse caso dificilmente será o último. A questão agora é se a indústria — e as plataformas que hospedam esse conteúdo — vai tomar medidas concretas para prevenir esse tipo de abuso, ou se os criadores continuarão assumindo o ônus de fiscalizar suas próprias imagens depois que o dano já foi feito.
Uma coisa está clara: na era da IA, “eu não vi a imagem original” não é mais uma justificativa suficiente.

Dani Silverio é comunicadora e profissional de marketing, movida pela paixão por cultura, esporte e lifestyle como ferramentas de conexão. Seu trabalho une curadoria, storytelling e sensibilidade editorial para aproximar a comunidade brasileira da cena vibrante da cidade.
Com passagem por coberturas de arte, design, eventos esportivos e experiências locais, Dani desenvolveu um olhar atento aos detalhes e uma linguagem acessível, capaz de traduzir grandes acontecimentos em narrativas próximas e relevantes. Entre bastidores e tendências, seu foco está em contar histórias que criam pertencimento, ampliam repertório e fortalecem pontes entre Miami e o público brasileiro.
