Parte 2 de 3 | A Revolução
Há um detalhe que a maioria dos painéis desta semana em Nova York mencionou de passagem — e que merece atenção diferente. Os maiores data centers em operação hoje consomem mais eletricidade do que cidades inteiras de porte médio. A projeção é que essa demanda triplique até o final da década, impulsionada pelo crescimento dos modelos de linguagem, visão computacional e inferência em escala. A inteligência artificial não existe no ar. Existe em galpões que precisam de energia, espaço físico, refrigeração e conectividade — e a conta de energia é, cada vez mais, o principal limitador de expansão.
Isso inverte uma das teses mais influentes das últimas duas décadas. Em O Mundo é Plano, Thomas Friedman argumentou que a revolução digital havia eliminado as vantagens geográficas — conectividade e software tornavam a localização irrelevante. Era uma leitura precisa para aquele momento. A IA de infraestrutura está desfazendo essa premissa. O mundo voltou a ser geográfico. Energia, espaço e localização são, outra vez, vantagens competitivas reais. E o Brasil, por razões que têm pouco a ver com planejamento e muito a ver com dotação natural, está bem posicionado nesse novo mapa.
As camadas da revolução
A inteligência artificial opera em pelo menos quatro frentes simultâneas — e confundi-las é o erro mais comum nos debates que tenho acompanhado esta semana em Nova York.
Nas empresas, processos que levavam semanas são executados em minutos. Análise jurídica, auditoria, triagem médica, atendimento, geração de código. O McKinsey Global Institute estima que até 70% das horas trabalhadas em funções cognitivas são tecnicamente automatizáveis com ferramentas que já existem. Mas redução de custo não é o mesmo que expansão de capacidade. Uma empresa que usa IA para atender dez vezes mais clientes com o mesmo time está fazendo algo diferente de uma que usa IA para demitir metade do time. Ambas reduzem custo unitário — só que uma delas está expandindo a fronteira do que é possível fazer.
Na vida do consumidor, algo mais profundo está acontecendo. O ser humano está adquirindo um copiloto cognitivo disponível sem custo marginal relevante — capaz de ajudá-lo a aprender, a trabalhar, a navegar sistemas complexos. O acesso a capacidade analítica sofisticada, antes restrito a quem podia contratar consultores, médicos ou advogados, está se democratizando em velocidade que nenhuma política pública poderia replicar.
A posição que o Brasil ocupa — e ainda não sabe explorar
Cerca de 85% da geração elétrica do Brasil vem de fontes renováveis — uma das matrizes mais limpas do mundo —, com custo industrial entre os mais competitivos do hemisfério ocidental. Enquanto os Estados Unidos enfrentam uma grid elétrica que não foi projetada para suportar a demanda da IA, disputas regulatórias que atrasam expansão e escassez de energia limpa justamente onde a computação se concentra, o Brasil tem espaço físico em abundância, clima que reduz custos de refrigeração em diversas regiões e fibra óptica chegando ao interior. A Europa opera com energia estruturalmente mais cara e regulação ainda mais restritiva. A China tem capacidade energética, mas carrega restrições geopolíticas crescentes para hospedar infraestrutura global.
Há ainda a questão mineral, que costuma ficar fora dos painéis de tecnologia mas que define quem participa da cadeia de valor da IA. O Brasil concentra mais de 90% das reservas mundiais conhecidas de nióbio — elemento crítico para ligas de aço de alta tecnologia. Tem reservas expressivas de lítio. Tem terras-raras, sem as quais não se fabricam os chips que rodam a inteligência artificial, em quantidades ainda não totalmente dimensionadas no subsolo nacional.
O Brasil tem os insumos físicos para ser um dos fornecedores estruturais desta revolução — e essa posição ainda não está ocupada por ninguém.
Pela primeira vez em séculos, o Brasil não chegou atrasado ao início de uma revolução tecnológica. Chegou com energia, com minerais, com espaço e com uma posição geográfica que o coloca a distância razoável tanto do mercado americano quanto do europeu.
As condições estão dadas. O que falta é decisão.
Continua na Parte 3.
Disclaimers / Disclosures
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João Daniel e Diogo Scelza são cofundadores da Harpian | Adaptive Portifolio Engeneering, boutique de gestão quantitativa de investimentos sediada na Flórida. Especialistas na interseção entre inteligência artificial, sistemas quantitativos e mercados financeiros globais, atuam na construção de estratégias sistemáticas de proteção e crescimento patrimonial para investidores institucionais e family offices.
