Há alguns anos, quando falávamos sobre as competências necessárias para conquistar uma oportunidade profissional, era quase natural pensar primeiro em formação acadêmica, experiência, conhecimento técnico, idiomas ou domínio de determinadas ferramentas. Tudo isso continua sendo importante. Mas, acompanhando processos seletivos e conversando com profissionais e empresas, tenho percebido que algumas das características que mais pesam em uma contratação são justamente aquelas mais difíceis de colocar em um currículo.
Curiosidade, energia, cumplicidade, capacidade de construir relações, senso de responsabilidade, iniciativa, flexibilidade e espírito empreendedor são alguns exemplos.
E talvez o mais interessante seja perceber que essas competências não aparecem necessariamente em uma pergunta direta durante a entrevista. Dificilmente um recrutador perguntará simplesmente: “Você é curioso?” ou “Você tem energia?”. Ele vai procurar essas respostas na maneira como o profissional conduz a conversa, nos exemplos que apresenta, nas perguntas que faz e, principalmente, na forma como conta sua própria trajetória.
A curiosidade, por exemplo, aparece quando o candidato demonstra que pesquisou a empresa, procura compreender o negócio e faz perguntas que vão além da descrição da vaga. É o profissional que não se limita a executar aquilo que recebeu, mas busca entender por que aquilo é importante e o que poderia ser feito melhor.
A energia também não significa falar alto, ser extrovertido ou demonstrar entusiasmo artificial. Energia profissional está muito mais relacionada à disposição para fazer acontecer. É aquela sensação que fica depois da conversa de que aquela pessoa vai entrar, participar, contribuir, mobilizar e ajudar a levar os projetos adiante.
O empreendedorismo, por sua vez, deixou há muito tempo de ser uma competência exclusiva de quem deseja abrir uma empresa. Dentro das organizações, ser empreendedor significa enxergar possibilidades, assumir responsabilidade, propor soluções e não esperar que todas as respostas venham prontas. É olhar para um problema e pensar: “O que eu posso fazer a partir daqui?”.
Há ainda uma competência sobre a qual talvez falemos pouco: a cumplicidade profissional. Não no sentido de concordar com tudo, mas de construir confiança. De entender que resultados importantes raramente são individuais. Empresas precisam de profissionais capazes de trabalhar com outras pessoas, dividir responsabilidades, apoiar colegas, discordar com respeito e compreender que existe um objetivo maior do que o próprio reconhecimento.
E junto a tudo isso aparece uma característica que considero cada vez mais relevante: accountability. Assumir as próprias decisões, compromissos e resultados. Em ambientes de trabalho que mudam rapidamente, as empresas precisam de pessoas que não estejam constantemente esperando alguém dizer exatamente o que deve ser feito. Precisam de profissionais capazes de tomar decisões, aprender com os erros, ajustar a rota e continuar.
Talvez seja justamente essa uma das grandes mudanças dos processos seletivos atuais. O currículo continua abrindo portas, mas ele conta apenas uma parte da história. Duas pessoas podem ter formações semelhantes, experiências parecidas e conhecimentos técnicos equivalentes. O que começa a diferenciá-las é aquilo que acontece quando entram em uma sala — presencial ou virtual — e começam a conversar.
Como pensam? Como escutam? Que perguntas fazem? Como falam das pessoas com quem trabalharam? Como contam seus erros? Demonstram vontade de aprender? Conseguem conectar experiências anteriores aos desafios futuros? Trazem problemas ou também apresentam caminhos?
São sinais aparentemente pequenos, mas que ajudam o entrevistador a responder uma pergunta muito maior: Como será trabalhar com essa pessoa todos os dias?
Por isso, preparar-se para um processo seletivo não deveria significar apenas revisar respostas para perguntas tradicionais. Deveria também envolver uma reflexão mais profunda sobre quais comportamentos queremos transmitir e, principalmente, quais deles realmente fazem parte da nossa maneira de trabalhar.
Conhecimento técnico pode ser atualizado. Uma nova ferramenta pode ser aprendida. Um processo pode ser ensinado. Mas curiosidade, energia, cumplicidade, responsabilidade, capacidade de relacionamento e vontade genuína de construir alguma coisa junto têm um peso diferente.
No final, talvez a pergunta que cada profissional devesse fazer antes da próxima entrevista não seja apenas “Tenho as qualificações necessárias para esta vaga?”
Talvez seja também:“Que tipo de profissional as pessoas percebem quando trabalham comigo?”
Porque as empresas contratam competências. Mas continuam escolhendo pessoas.
Carolina Melo Leitao
https://www.linkedin.com/in/carolinameloleitao

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
