Flavia da Matta
Nós já estávamos ali havia mais de quarenta minutos. Ela tinha falado bem de duas ou três pessoas. Reconheceu o esforço de uma, admirou a coragem de outra, entendeu por que uma terceira ainda não tinha conseguido sair do lugar.
Então começou a falar de si.
Não tinha conseguido. Não tinha encontrado a pessoa certa. Devia ter feito mais, tentado antes, dito alguma coisa naquela hora. Na vida dos outros, ela enxergava circunstâncias. Na dela, parecia encontrar apenas falhas.
Fiquei olhando para ela e pensando: se nem ela está do lado dela, quem é que vai estar?
Comentei que algumas das coisas que dizia a si mesma ela provavelmente não diria nem a um estranho. Para os outros, havia compreensão. Para ela mesma, parecia sempre faltar alguma coisa antes de merecer o mesmo tratamento.
O que me tocou foi perceber que ela sabia ser a pessoa de quem estava precisando.
Só não conseguia ser assim consigo mesma.
Mas de onde vem essa diferença?
Penso numa criança que chega com uma nota boa e ouve que não fez mais que a obrigação. Quando erra, porém, o assunto rende. Há perguntas, comparações, decepção. Se acertar quase não merece conversa e errar mobiliza tanta atenção, o que ela aprende a observar em si?
Pesquisas associam a percepção de que o afeto dos pais depende do comportamento ou do desempenho a mais pressão interna e oscilações na autoestima. Não é a história de todo mundo. Mas fico pensando em como deve ser cansativo crescer sentindo que a aprovação precisa ser conquistada de novo a cada tentativa.
Talvez a cobrança continue mesmo depois de ninguém mais estar conferindo o boletim.
Não sei se essa era a história dela. Fiquei pensando há quanto tempo ela falava consigo mesma naquele tom. E quando aquilo tinha começado a parecer justo.
Será que nos achamos tão piores que os outros? Ou esperamos de nós algo que não esperamos de ninguém? Os outros podem se confundir, escolher mal, precisar de tempo. Nós já deveríamos ter aprendido.
Não sei se chamaria isso de soberba. Mas é curioso aceitar que todo mundo tem limites e não admitir os próprios.
E nem quando alguma coisa dá certo o julgamento descansa. Foi sorte. Qualquer pessoa teria feito. O elogio veio de alguém que gosta de nós e, portanto, não conta.
Para acreditar num defeito nosso, não pedimos prova. Já uma qualidade precisa vir com firma reconhecida.
Enquanto ela falava, eu pensava em quanto da vida fica de fora desse balanço. O que deu certo, quem chegou, o que conseguimos construir. Tudo isso aconteceu também.
Em experimentos sobre gratidão, pessoas que anotavam motivos para agradecer relataram mais emoções positivas. Fiquei pensando se poderíamos dedicar um pouco dessa atenção aos próprios feitos. Deixar que uma coisa boa conte antes de procurar o que faltou.
Talvez exista o medo de que, sem tanta cobrança, a gente se acomode. Mas há pesquisas em que pessoas incentivadas a se tratar com compreensão depois de uma falha se empenharam mais na tentativa seguinte.
Isso me interessa. A possibilidade de continuar querendo melhorar sem precisar nos diminuir para começar.
Aquela pessoa tinha frustrações reais. Precisava poder falar do que doía sem usar cada dor como prova de que havia alguma coisa errada com ela.
Talvez ela pudesse dar algum valor ao que já tinha feito, sem logo acrescentar um “mas”. Ainda havia muita coisa que queria mudar. Isso não precisava tirar o mérito do que já tinha conseguido.
Eu tinha acabado de ouvi-la falar com tanto carinho de outras pessoas.
Queria que, em algum momento daquela conversa, ela também coubesse ali.

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
