Com 2 milhões de pessoas na areia, convidados especiais e mais de 30 músicas, a colombiana entregou a maior apresentação de sua carreira — e o maior show de uma artista latina da história
A praia de Copacabana se transformou, na noite do último sábado (2), em palco do maior espetáculo já protagonizado por uma artista latina. Shakira reuniu cerca de 2 milhões de pessoas na orla carioca e entregou uma apresentação de quase três horas que mesclou décadas de hits, 13 trocas de figurino, produção audiovisual impressionante e um gesto de amor genuíno ao Brasil — convidando Anitta, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Ivete Sangalo para dividirem o palco com ela.
O evento integra o projeto Todo Mundo no Rio, série de megashows gratuitos que já se consolidou no calendário cultural da cidade. Após Madonna (2024) e Lady Gaga (2025), foi a vez de Shakira escrever seu capítulo nessa tradição. O público ficou muito próximo do registrado na apresentação de Lady Gaga, que reuniu 2,1 milhões de pessoas no ano passado, superando com folga os 1,6 milhão de fãs que estiveram presentes na noite da Madonna.
O início: drones, lobos e declaração de amor ao Brasil
Ainda antes de Shakira pisar no palco, o céu de Copacabana ganhou vida com um espetáculo de drones que desenhou um lobo luminoso sobre a orla — referência direta à canção She Wolf. Em seguida, uma mensagem em português: “Eu te amo, Brasil.” O público explodiu. A abertura do set foi com “La Fuerte”, do álbum Las Mujeres Ya No Lloran (2024), seguida de Girl Like Me em parceria com o Black Eyed Peas, que incendiou a areia logo nos primeiros minutos.
O show percorreu mais de 30 anos de carreira com uma curadoria cuidadosa. Clássicos como Estoy Aquí, Inevitable, Hips Don’t Lie e Whenever, Wherever dividiram o setlist com lançamentos recentes como Te Felicito, TQG (parceria com Karol G) e Soltera. Momentos de maior intimidade também tiveram espaço: ao apresentar Soltera, Shakira se dirigiu ao público e declarou que o Brasil tem mais de 20 milhões de mães solteiras. “Eu sou uma delas. Eu dedico esse show a todas elas”, disse, arrancando ovações.
Os convidados: Brasil em cena
Se havia dúvidas sobre o afeto de Shakira pelo Brasil, os convidados especiais da noite dissiparam qualquer questionamento. Anitta subiu ao palco para estrear ao vivo Choka Choka — parceria lançada dias antes do show, que mistura funk carioca com pop colombiano — sendo apresentada pela colombiana como “rainha”. A parceria soou como o encontro de duas das maiores potências musicais femininas da América Latina.
Mas foi a presença de Caetano Veloso que arrancou gritos incontidos da plateia. Shakira revelou que Leãozinho faz parte do repertório que canta para o filho Milan, de 13 anos, e que a música sempre a emociona. Caetano entrou ao palco e os dois cantaram juntos a canção, em um momento que boa parte do público não esperava. Logo depois, Maria Bethânia dividiu o microfone com a colombiana em O Que É, O Que É, de Gonzaguinha, acompanhadas pela bateria da escola de samba Unidos da Tijuca. Para fechar o bloco de convidados, Ivete Sangalo colocou Copacabana inteira para pular ao cantar País Tropical ao lado de Shakira — em uma cena que resumiu bem o espírito da noite.
Produção, figurinos e o encerramento épico
Com 13 trocas de figurino ao longo da apresentação, Shakira demonstrou uma energia física impressionante. A dança do ventre em Ojos Así foi o ponto alto da expressão corporal da artista, reforçando suas raízes libanesas em um dos momentos mais ovacionados do show. O medley de Copa Vacía, La Bicicleta e La Tortura reuniu diferentes fases da carreira em sequência. E Hips Don’t Lie, inevitável, levou a festa ao ápice.
O show encerrou com um encore de She Wolf e da BZRP Music Session — faixa que, não por acaso, foi o estopim do fenômeno de renovação da carreira de Shakira após 2023. A Loba voltou ao início, ao símbolo que abriu a noite, fechando o círculo com o mesmo lobo que brilhou nos drones sobre Copacabana.
Repercussão mundial e impacto econômico
A imprensa internacional se rendeu ao espetáculo. O El País descreveu Shakira como “aclamada rainha da música latina por 2 milhões de pessoas na praia de Copacabana”. O Le Monde, pela AFP, falou em uma verdadeira “maré humana” sob a lua cheia. A agência EFE classificou a apresentação como um marco histórico tanto para a carreira da artista quanto para a presença da música latina em eventos de massa globais. Para a América Latina, foi simbólico: o El Espectador, da Colômbia, chamou de “a atuação mais ambiciosa de sua trajetória”.
Além do impacto cultural, os números econômicos chamam atenção. A Prefeitura do Rio destinou R$ 20 milhões para o evento, enquanto a expectativa é de que a exposição internacional espontânea gerada pelo show alcance cerca de R$ 1,3 bilhão em valor de mídia. O projeto Todo Mundo no Rio se consolida, portanto, como um dos investimentos em turismo e imagem mais rentáveis da história recente da cidade.
Uma noite que ficará na memória
Shakira chegou ao Rio de Janeiro consciente do tamanho do público que encontraria. Mas o que aconteceu em Copacabana no sábado foi além de números. Foi a confirmação de que a artista colombiana — que transformou uma separação devastadora em matéria-prima para sua maior fase criativa — sabe como poucos se reconectar com a multidão. E que o Brasil, como sempre, não economizou no calor da recepção.
O Todo Mundo no Rio já escreveu três capítulos inesquecíveis. E a pergunta que fica no ar — quem virá em 2027? — só reforça o quanto esse evento se tornou, em tempo recorde, uma das maiores celebrações da música ao vivo no mundo.
SETLIST COMPLETO — SHAKIRA EM COPACABANA (2 DE MAIO DE 2026)
• La Fuerte • Girl Like Me (com Black Eyed Peas) • Las de la Intuición / Estoy Aquí
• Empire / Inevitable • Robot Intro • Te Felicito • TQG (com Karol G)
• Don’t Bother • Acróstico • Copa Vacía • La Bicicleta (com Carlos Vives) • La Tortura
• Hips Don’t Lie • Chantaje • Loca • Soltera
• Choka Choka (com Anitta) • Can’t Remember to Forget You (com Rihanna)
• Ojos Así • Pies Descalzos, Sueños Blancos • O Leãozinho (com Caetano Veloso)
• O Que É, O Que É (com Maria Bethânia + bateria da Unidos da Tijuca)
• País Tropical (com Ivete Sangalo) • Whenever, Wherever • Waka Waka
• BZRP Music Session #53 / #66 • She Wolf (encore)

Franciele Becuzzi escreve sobre música, cultura e tudo o que transforma o dia a dia em experiência — de shows e eventos a séries e descobertas pela cidade. Em Miami, acompanha de perto o que movimenta a cena cultural, com um olhar leve, curioso e atento aos detalhes. Eclética por essência, transita entre diferentes universos e linguagens, compartilhando experiências, referências e dicas que inspiram o leitor a explorar, assistir e viver mais.
