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    Início » De quantos “quase” vamos vivendo?

    De quantos “quase” vamos vivendo?

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    By Letícia Sangalleti on 25 de junho de 2026 Mente Sã
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    Por Leticia Sangaletti

    Jornalista Dra. em Letras

    Quase aceitei. Quase desisti. Quase liguei. Quase fui. Quase me envolvi. Quase disse sim quando a mente ensaiava um não. QUASE.

    O quase costuma chegar com cara de arrependimento, mas nem sempre é perda, pode ser só o sinal de um amadurecimento que chega silenciosamente, mesmo quando a gente não consegue nem raciocinar direito.

    A gente escuta muito isso, de que o “quase” é uma forma de interromper algo, aquilo que poderia ter sido e não foi, oportunidades que passaram. E de fato, não quer dizer que não seja. Mas talvez haja uma forma diferente de olhar para os quases. Quem sabe alguns deles sejam a linha tênue que nos impede de perder mais do que ganharíamos.

    Eu quase não aceitei um convite para ser coordenadora de comunicação e marketing de uma feira. Não porque não quisesse, mas porque uma parte minha ainda confundia responsabilidade com perigo. Depois de passar por tanto, a gente começa a medir o mundo com régua de consequência. Antes de dizer sim, já imagina o peso, calcula a queda e antes de se expor, já prevê (e sente) o julgamento.

    Fui. Aceitei. Encarei como desafio e entendi que talvez alguns quases existam justamente para revelar onde ainda estamos pedindo licença para ocupar lugares que já são nossos. Nossos lugares de protagonismo, de fala, de poder. E que bom que eu não parei naquela barreira mental que eu tenho me imposto rigorosamente, e que por vezes tem a função silenciosa de me salvar de mim mesma.

    O quase é o ponto, por vezes num milésimo de segundo do “e se”, que a gente reflete sobre territórios que são mais delicados e escorregadios, que nos dão uma falsa ideia de segurança, e, muito embora possa criar uma confusão entre o certo e o errado, entre o moral e o imoral, entre o desejo e a consequência, ele nos faz, no mínimo pensar nossas ações.

    Há momentos em que a gente não para no quase, não por falta de vontade. Para porque alguma parte mais profunda da gente entende antes que é preciso parar. É a nossa mente, o nosso corpo, intuição e a experiência? Não sei. Talvez todos juntos.

    Como na crônica de Galeano em que algumas pessoas são fogueirinhas que queimam, alguns quases são fósforos, quase inofensivos mas que… bom, vocês já sabem. Nem toda faísca merece virar fogo. E mesmo que a vida exija da gente coragem, é preciso entender que essa coragem não é se jogar em todas as oportunidades que aparecem, mas saber dizer não, recuar, decidir ficar ou seguir. esperar e aprender a ler os sinais, os silêncios, as ausências, e compreender que toda escolha tem um preço.

    E sinceramente, cheguei num ponto da vida que percebi que o “só se vive uma vez” não me cabe mais, e a consequência de ultrapassar os quases pode ser sempre pior.

    Pode ser que seja isso que a vida adulta vai nos ensinando: a separar os quases que nascem do medo, dos quases que nascem da lucidez. E parafraseando de forma bem distante (novamente) Galeano, há os quases que nos diminuem, que nos fazem recuar diante de oportunidades, que nos mantêm pequenas diante de espaços que poderíamos ocupar. Mas há também os quases que nos protegem, que nos puxam pelo braço antes do abismo, que nos devolvem para nós mesmas antes que a gente se perca tentando caber em espaços que não nos pertencem.

    O trabalho mais difícil talvez seja separar um do outro sem mentir para si, sem se ludibriar a si próprias.

    Enfim,o quase que quase me impediu de assumir um cargo tão significativo para mim, diz muito sobre eu voltar a me expor. Ou seria mesmo voltar a me abrir para um mundo que eu sempre gostei e voltar a ser vista?

    Porque, para mim, o desejo de ser vista não está relacionado à vaidade, longe disso, mas significa receber reconhecimento por quem eu sou, pelo que faço, pela minha dedicação. E isso passa por compreender em que lugar o quase para: usando uma toga que acusa ou que absolve?

    Ele pode ser a lembrança de uma oportunidade que quase perdemos por insegurança. Mas também pode ser a marca de uma queda que não queremos que ninguém saiba. Pode ser o convite que, por pouco, não aceitamos. Pode ser o envolvimento do qual escapamos antes que virasse ferida. Mas é imprescindível inferir que nem todo quase é uma vida que não tivemos, mas sim, às vezes, é uma vida que conseguimos preservar.

    E bom, se (volto a esta questão) a vida requer coragem, que entendamos que coragem não é ausência de limite, mas discernimento para saber quando o medo nos impede de crescer ou quando está a nos proteger.

    Vai chegar um momento em que, mesmo aprendendo a separar esses quases a gente vai fazer a escolha errada, e vai ter que aprender a lidar com as consequências. O que fica, para mim, é aprender a escutar a diferença entre eles e saber decidir sempre da melhor forma. Sem se boicotar, mas sem se arriscar de forma inconsequente.

    E vou te contar. Fazer pausas é a melhor forma de olhar para isso, por outros ângulos, de outros pontos, possibilitando outros diálogos, novas oportunidades.
    Faça pausas, pense, pare por um milésimo de segundo antes do “quase”, para só depois decidir se vai ou se fica.

    Letícia Sangalleti
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