Em sua passagem por Miami, cantora chilena-mexicana apresentou um espetáculo dividido em atos, unindo música, teatro, dança e uma estética que transforma casamento, beleza e paixão em elementos de uma grande narrativa
O Fillmore Miami Beach, em Miami Beach, recebeu na sexta-feira, 7 de agosto, uma das apresentações mais teatrais da atual fase de Mon Laferte. Com a Femme Fatale Tour, a cantora chilena-mexicana levou ao público uma experiência que vai muito além de um tradicional show musical: quatro atos, diferentes personagens, bailarinos, elementos cenográficos e uma estética cuidadosamente construída para acompanhar a narrativa de sua atual era artística.
A turnê celebra a fase iniciada com Femme Fatale, nono álbum de estúdio da artista, lançado em outubro de 2025. O disco, com 14 faixas, explora jazz, bolero e sonoridades pop com uma atmosfera marcada pelo glamour noir, sensualidade, vulnerabilidade e uma forte presença teatral. Em junho de 2026, Mon ampliou esse universo com Femme Fatale Vol. 2, dando continuidade a uma das fases mais ambiciosas de sua carreira.
A Femme Fatale Tour também representa uma grande expansão internacional dessa nova era. A etapa norte-americana reúne 28 apresentações entre Estados Unidos e Canadá, passando por cidades como Miami, Atlanta, Nova York, Chicago, Detroit, Las Vegas e Los Angeles. A passagem por Miami aconteceu logo no início dessa etapa da turnê, que começou no fim de julho e segue até novembro.
Antes de Mon, a Femme Fatale já estava na plateia
A estética do espetáculo não começou no palco.
Nos corredores do Fillmore Miami Beach, os próprios fãs pareciam fazer parte da produção. Muitos chegaram vestidos de acordo com o universo visual de Femme Fatale, usando vestidos de noiva, véus e faixas que remetiam a concursos de beleza.
As rosas também apareceram em grande número, especialmente nos cabelos. O detalhe carregava uma referência afetiva à imagem de Mon Laferte em momentos anteriores de sua carreira: os cabelos com franja acompanhados pela tradicional rosa ao lado do rosto.
Era como se diferentes versões da artista estivessem reunidas na mesma noite. A Mon do passado aparecia através dos símbolos reconhecidos pelos fãs, enquanto a nova Femme Fatale dominava a estética do presente.
Ato I — A noiva entra em cena
Pouco antes da entrada da cantora, “Tonight You Belong to Me” criou a atmosfera para o início do espetáculo.
Então, as luzes se voltaram para o palco e Mon Laferte surgiu para cantar “Mi Hombre”.
Vestida de noiva e com os olhos vendados, a artista iniciou o espetáculo como uma personagem que parece estar entrando em uma história sem saber exatamente onde ela irá terminar.
A escolha não poderia ser mais simbólica. O casamento, apresentado desde os primeiros minutos, funciona como uma das imagens centrais da narrativa visual da turnê.
O primeiro ato segue com “Femme Fatale”, “Tormento”, “Veracruz”, “For Your Consideration”, “My One and Only Love” e “Can’t Take My Eyes Off You”, esta última uma versão do clássico eternizado por Frankie Valli.
A sequência estabelece a atmosfera do espetáculo: glamour, romance, desejo e uma certa melancolia convivem no mesmo palco.
O casamento também ganha um momento próprio na apresentação, e Mon leva a simbologia ainda mais longe ao lançar o buquê de flores para o público. O gesto transforma um dos símbolos mais tradicionais de uma cerimônia de casamento em parte da performance, provocando gritos e disputa entre os fãs.
Ato II — Entre glamour, humor e sensualidade
O segundo ato trouxe uma mudança de energia.
Mon retornou ao palco com “1:30”, seguida por “El Gran Señor”, “La Tirana”, “Vuelve Por Favor” e “Química Mayor”.
Então vieram duas das músicas mais recentes de sua carreira: “Hello Monserrat” e “Tal Vez Yo Soy El Problema”, ambas de Femme Fatale Vol. 2.
“Hello Monserrat” acrescenta uma camada particularmente íntima ao espetáculo. A música pertence ao lado mais vulnerável de Femme Fatale Vol. 2, enquanto “Tal Vez Yo Soy El Problema” apresenta uma energia mais irreverente e punk. A própria descrição editorial do álbum destaca justamente esse contraste entre vulnerabilidade, sensualidade e atitude punk.
O ato segue com “Supermercado” e “Amor Completo”, conectando a nova fase da cantora a músicas que já fazem parte da memória afetiva de seu público.
Um palco que também conta histórias
Entre os atos, Mon deixa o palco temporariamente e os bailarinos assumem o protagonismo.
Em um dos momentos mais teatrais da noite, eles protagonizam um diálogo e uma pequena sequência dramática antes da apresentação de “Esto Es Amor”.
A escolha reforça uma das características mais marcantes da Femme Fatale Tour: o espetáculo não depende exclusivamente da presença de Mon para contar sua história.
A dança, a interpretação e os intervalos entre as músicas funcionam como capítulos de uma narrativa maior.
Ato III — Amor, vulnerabilidade e intensidade
O terceiro ato começa com “Esto Es Amor” e segue com “Flor de Amapola”, “Ocupa Mi Piel”, “Funeral”, “Las Flores Que Dejaste en la Mesa”, “Si Tú Me Quisieras”, “Amantes Suicidas” e “Amárrame”.
Aqui, a atmosfera ganha uma dimensão mais emocional.
Se os primeiros atos apresentam a personagem através de símbolos como casamento, beleza e sedução, esta parte do espetáculo permite que apareçam outras camadas: vulnerabilidade, desejo, perda e entrega.
É justamente essa mistura que faz de Mon Laferte uma artista difícil de colocar dentro de um único gênero. Sua música atravessa bolero, jazz, rock, pop e outras referências latino-americanas, enquanto sua performance transforma essas influências em uma experiência visual.
Quando o público também vira parte do espetáculo
A conexão entre Mon e seus fãs também ganhou um dos momentos mais divertidos da noite: a câmera do beijo.
A câmera percorreu a plateia e colocou casais sob os holofotes, provocando beijos, gritos, risadas e reações espontâneas.
O momento trouxe leveza à apresentação e reforçou uma característica importante da noite: apesar de toda a construção teatral e visual, havia espaço para a espontaneidade.
Ato IV — Os clássicos e a despedida
Na reta final, Mon Laferte voltou a algumas das músicas que ajudaram a construir sua trajetória e que permanecem entre as favoritas do público.
O último ato reuniu “Melancolía”, “Mi Buen Amor”, “Antes de Ti”, “Otra Noche de Llorar”, “Tu Falta de Querer” e “Vida Normal”.
A escolha de encerrar com “Vida Normal” ganha um significado especial dentro do universo de Femme Fatale. O álbum original termina justamente com essa faixa, que contrasta com a figura intensa e dramática da “femme fatale” e aponta para uma busca por uma vida mais simples e real.
Depois de atravessar casamento, desejo, paixão, vulnerabilidade e desilusão, a narrativa chega a um lugar aparentemente mais sereno.
Uma experiência que começa antes do primeiro acorde e termina depois da última música
Em Miami, Mon Laferte não apresentou apenas um repertório de músicas. Ela construiu um universo.
A Femme Fatale Tour funciona justamente nesse encontro entre música e performance. A nova era de Mon Laferte não se limita ao álbum que lhe deu nome: ela se transforma em figurino, personagem, dança, cenografia e, principalmente, em uma história que cada espectador interpreta à sua maneira.
No Fillmore Miami Beach, essa história encontrou uma plateia disposta não apenas a assistir, mas a participar dela.
E talvez seja esse o grande triunfo de Mon Laferte: transformar suas canções em personagens e seus fãs em parte do espetáculo.

Franciele Becuzzi escreve sobre música, cultura e tudo o que transforma o dia a dia em experiência — de shows e eventos a séries e descobertas pela cidade. Em Miami, acompanha de perto o que movimenta a cena cultural, com um olhar leve, curioso e atento aos detalhes. Eclética por essência, transita entre diferentes universos e linguagens, compartilhando experiências, referências e dicas que inspiram o leitor a explorar, assistir e viver mais.
