Farmacêutica Esteta
PhD em Biotecnologia em Saúde
CEO da Clínica Dra. Mônica Martellet Estética Avançada
Professora Universitária e Coordenadora de Pós-Graduação em Estética Clínica
Colunista da Florida Review Magazine – Miami, EUA
O que realmente acontece quando uma pessoa se olha no espelho? À primeira vista, a resposta parece simples: ela reconhece o próprio rosto. Mas, do ponto de vista neurocognitivo, essa experiência é muito mais complexa. Não enxergamos nossa face como uma imagem neutra. Aquilo que vemos é interpretado a partir de memórias, emoções, experiências sociais, referências culturais e da representação mental que construímos de nós mesmos ao longo da vida.
É justamente nesse território, entre imagem, percepção e identidade, que a estética contemporânea precisa ser discutida.
Durante muito tempo, procedimentos estéticos foram associados quase exclusivamente à vaidade. Essa interpretação, porém, tornou-se insuficiente diante da complexidade da autopercepção. O rosto não é apenas uma estrutura anatômica: é uma das principais interfaces da nossa identidade com o mundo. É através dele que expressamos emoções, somos reconhecidos e percebemos parte das transformações impostas pelo tempo.
O envelhecimento facial, por exemplo, é um processo biologicamente multidimensional. Alterações na matriz extracelular, redução e reorganização do colágeno, mudanças nas propriedades biomecânicas da pele, redistribuição dos compartimentos adiposos e remodelamento das estruturas ósseas modificam progressivamente a arquitetura facial. Entretanto, enquanto a anatomia envelhece objetivamente, a percepção subjetiva de quem somos pode não acompanhar esse processo na mesma velocidade.
É nesse ponto que surge uma questão fascinante: o que acontece quando a imagem refletida deixa de corresponder à imagem mental que construímos de nós mesmos?
Não se trata necessariamente de negar o envelhecimento. Uma paciente que afirma “pareço cansada, mas não me sinto cansada” pode estar descrevendo mais do que uma alteração anatômica. Existe ali uma possível incongruência entre aquilo que ela sente internamente e aquilo que acredita comunicar externamente. A queixa estética, portanto, pode carregar uma dimensão perceptiva e emocional que não pode ser compreendida apenas em milímetros, proporções ou volumes.
Isso não significa afirmar que procedimentos estéticos sejam capazes de “tratar autoestima”. Autoestima é um fenômeno multidimensional, influenciado por história de vida, vínculos afetivos, contexto social, saúde emocional e inúmeras outras variáveis. Seria cientificamente inadequado depositar em um procedimento a responsabilidade de reconstruí-la.
O que podemos discutir é algo mais preciso: a aparência participa da construção da autopercepção. Dessa forma, quando existe indicação adequada, expectativa realista e uma característica específica produz desconforto relevante para o indivíduo, modificar essa característica pode repercutir na maneira como ele experiencia a própria imagem.
O procedimento acontece no tecido. A experiência do resultado acontece no indivíduo.
Essa distinção torna-se ainda mais importante na era digital. Nunca observamos tanto a própria face. Câmeras frontais, vídeos, reuniões virtuais, redes sociais e filtros ampliaram de maneira extraordinária nossa exposição à própria imagem. Ao mesmo tempo, algoritmos nos apresentam continuamente padrões estéticos selecionados, editados e frequentemente difíceis de reproduzir biologicamente.
O paciente contemporâneo, portanto, não chega ao consultório apenas com sua anatomia. Chega acompanhado por referências digitais, comparações, expectativas e versões modificadas da própria imagem.
É nesse cenário que a avaliação estética assume uma dimensão ética fundamental. Antes de perguntar “o que podemos modificar?”, talvez seja necessário perguntar “por que desejamos modificar?”.
A excelência clínica não está somente na capacidade de executar procedimentos. Está também na capacidade de reconhecer expectativas irreais, preservar características individuais e, quando necessário, decidir não intervir. Nem toda assimetria precisa ser corrigida. Nem toda marca do tempo precisa desaparecer. E nem toda tendência estética merece ser reproduzida em um rosto.
Naturalidade, nesse contexto, não significa ausência de intervenção. Significa inteligência na intervenção, saber o que tratar, quanto tratar e, principalmente, reconhecer o momento em que fazer mais deixaria de produzir um resultado melhor.
O objetivo não deveria ser devolver ao paciente o rosto que possuía vinte anos atrás, tampouco construir uma versão idealizada de quem ele deveria ser. Deveria ser preservar a coerência entre aquilo que muda biologicamente e aquilo que permanece essencialmente individual.
