No artigo de hoje, tenho o prazer de compartilhar a trajetória da Michelle, uma profissional com mais de duas décadas de experiência em marketing estratégico e comunicação, que construiu sua carreira transitando por diferentes contextos culturais e profissionais — do ambiente de agências ao mundo corporativo, passando por uma das marcas mais reconhecidas do planeta.
Michelle viveu e trabalhou no Brasil, na Austrália e, há mais de uma década, nos Estados Unidos. Ao longo dessa jornada, acumulou experiências em ambientes altamente competitivos e globais, incluindo sua atuação na The Walt Disney Company, onde aprofundou sua visão sobre construção de marca, experiência do cliente e estratégia de posicionamento em escala internacional.
Hoje, por meio da AllSenses Academy, ela atua como consultora em personal branding, posicionamento estratégico e visibilidade profissional, ajudando profissionais em transição de carreira, empreendedores, criadores digitais e líderes a estruturarem suas marcas pessoais com mais clareza, intenção e consistência.
Mais do que uma mudança de função, sua trajetória representa uma transição de mentalidade: sair de estruturas corporativas consolidadas para construir um trabalho autoral, baseado em experiência, visão estratégica e propósito.
Nesta conversa, Michelle compartilha reflexões muito honestas sobre os diferentes capítulos da sua carreira — da velocidade das agências à escala das grandes corporações, da experiência multicultural na Disney ao desafio de construir uma consultoria própria.
Mais do que uma história sobre marketing ou branding, esta é uma conversa sobre evolução profissional, coragem para mudar e a importância de posicionamento em um mercado cada vez mais global.
A seguir, compartilho nossa conversa.
Transição de Carreira: Do Corporativo à Consultoria
1. Se você pudesse dividir sua trajetória em capítulos — agência, corporativo, Disney e consultoria — como você descreveria cada fase da sua vida profissional?
Com certeza são capítulos muito diferentes, mas que se complementam e que me fizeram ter essa mentalidade e visão que tenho hoje.
Na agência eu aprendi velocidade, gestão de negócios e desenvolvi minha habilidade com vendas. Era o lugar onde as ideias nasciam e precisavam virar resultado rápido. Onde eu precisei rapidamente entender como funcionam áreas diferentes da minha para que pudesse crescer.
No corporativo eu aprendi escala e liderança. Passei a entender como grandes empresas tomam decisões, constroem marca no longo prazo e movem estruturas complexas.
Na Disney entendi o poder de ser “multicultural” e ampliei minha visão do que é pensar como líder de mercado. Ali eu aprendi que marketing não é só comunicação. É experiência, consistência e obsessão pelo detalhe.
E agora, na consultoria, é a fase onde tudo se conecta. Eu consigo juntar visão estratégica, gestão, experiência global e leitura de mercado para ajudar empresas e profissionais a estruturarem marcas mais fortes e decisões mais inteligentes. E sigo aprendendo todos os dias.
2. O que te levou a sair da zona de conforto do mercado tradicional para buscar a experiência na Disney? Foi sonho, estratégia ou inquietação?
Foi um pouco dos três, e começou com certeza com o sonho…
Sempre tive curiosidade por ambientes que pensam grande e operam em escala global. A Disney é um desses lugares.
Ao mesmo tempo, eu sentia uma inquietação. Eu queria entender como as marcas mais fortes do mundo constroem valor de forma tão consistente.
Então sim, tinha sonho envolvido. Mas também tinha estratégia. Eu sabia que aquela experiência iria expandir minha visão de marketing, de gestão e de construção de marca.
E foi exatamente isso que aconteceu.
3. Trabalhar na Disney representa, para muitos, um marco. O que essa experiência realmente mudou em você — como profissional e como pessoa?
A Disney muda a forma como você enxerga o impacto do seu trabalho.
Lá você percebe que cada detalhe da marca existe por um motivo. Nada é aleatório.
Como profissional, essa experiência refinou muito o meu olhar estratégico. Eu já enxergava marketing como algo maior do que comunicação, mas na Disney isso ganha outra dimensão. Você percebe como cada detalhe é pensado como parte de uma arquitetura completa de experiência.
Como pessoa, além de realizar um sonho, também foi a superação de um grande desafio. Entrar na maior empresa de entretenimento do mundo como imigrante, em outro país, ocupando uma posição executiva, teve um significado muito especial para mim.
O que mais me marcou foi ver o nível de disciplina e consistência que existe por trás de algo que, para o público é mágico. Mas é resultado de muita experiência e consistência.
4. Existe um “antes e depois” na sua forma de enxergar marketing após a Disney? O que ficou e o que você deixou para trás?
Existe sim. Eu já enxergava marketing como algo muito maior do que campanhas ou comunicação. Sempre vi marketing como uma construção estratégica de marca e percepção.
O que a Disney fez foi elevar isso a um outro nível. Lá você percebe como cada detalhe da experiência, da comunicação ao produto, da operação ao atendimento, trabalha de forma integrada para construir valor de marca.
Passei a enxergar marketing quase como uma engenharia invisível que molda como as pessoas sentem, pensam e lembram de uma marca ao longo do tempo.O que ficou ainda mais forte foi a obsessão por consistência e experiência.
O que ficou para trás foi a visão de marketing como algo isolado dentro da empresa. Na prática, ele é uma das engrenagens centrais do negócio, e quem demora muito para entender isso acaba ficando para trás.
5. Em que momento você percebeu que queria atuar como consultora? Foi uma decisão planejada ou uma construção natural?
Foi uma construção natural. Ao longo da minha carreira muitas pessoas começaram a me procurar para conversar e pedir conselhos sobre carreira, posicionamento e decisões estratégicas.
Eu também já tinha tido experiências na área de educação, dando aulas em programas de pós-graduação e MBA, e ensinar sempre foi algo que me realizava muito.Com o tempo, essas conversas começaram a mostrar que existia valor na forma como eu conectava visão estratégica, experiência corporativa e leitura de mercado.
A consultoria surgiu então como uma evolução natural dessa trajetória e também da forma como eu comecei a enxergar meu futuro profissional nos próximos anos. Não foi um salto no escuro. Foi o próximo passo.
6. A transição da estrutura corporativa para a autonomia da consultoria costuma trazer inseguranças. Quais foram os maiores desafios emocionais e estratégicos nesse processo?
O maior desafio é sair de um ambiente onde a estrutura já existe. No corporativo você tem marca, time, processos e orçamento. Na consultoria você precisa construir tudo isso. Emocionalmente o desafio é lidar com a responsabilidade das próprias decisões.
Estratégicamente o desafio é posicionamento. No mercado de consultoria, não basta ser competente.
É preciso ser claro sobre o valor que você entrega.
Essa clareza leva tempo para ser construída e percebida.
7. O que você precisou desaprender para conseguir se posicionar como consultora no mercado internacional?
Precisei desaprender a ideia de que o valor do profissional está apenas no cargo que ele ocupa dentro de uma empresa.
No ambiente corporativo, seu título e a empresa onde você trabalha dizem muito sobre você.
Na consultoria, o que fala mais alto é sua capacidade de gerar impacto real.
Você precisa aprender a traduzir experiência em valor claro para o cliente.
8. Hoje, olhando para sua trajetória completa, qual foi a habilidade mais decisiva para atravessar essas mudanças com consistência?
Com certeza foi a capacidade de adaptação sem perder identidade, e também a coragem de fazer movimentos importantes na hora certa.
Cada ambiente exige uma forma diferente de pensar e operar. Agência, multinacional, Disney, consultoria.
Mas ao mesmo tempo você precisa manter um eixo claro sobre quem você é como profissional e qual é a sua forma de gerar valor.
Muitas mudanças exigem coragem para sair de estruturas conhecidas e assumir novos desafios.
Adaptar-se é importante. Mas em alguns momentos da carreira também é preciso ter coragem para mudar de ambiente e continuar evoluindo.
9. Que erro você vê muitos profissionais cometerem quando tentam migrar do corporativo para uma carreira mais autoral ou consultiva?
O erro mais comum é acreditar que experiência sozinha vai atrair clientes.
Muitos profissionais têm uma carreira sólida, mas não sabem comunicar com clareza o problema que resolvem.
Sem posicionamento claro, o mercado não entende o valor da sua experiência.
E quando isso acontece, o profissional acaba competindo por preço ou por projetos menores do que deveria.
10. Se você pudesse dar um conselho para brasileiros que sonham em trabalhar em grandes marcas globais, mas também desejam construir algo próprio no futuro, qual seria?
Sonhar é maravilhoso, mas só o sonho não constrói carreira.
Para chegar a grandes empresas é preciso muito mais do que estudar. É preciso consistência, atitude e vontade real de fazer acontecer. Eu costumo dizer que sou uma “fazedora”. No mercado, as pessoas não são reconhecidas apenas pela técnica, mas pela energia, responsabilidade e brilho no olhar com que fazem o trabalho.
Depois que você conquista seu espaço em uma grande empresa, começa a parte mais valiosa do aprendizado. Não basta executar bem sua função. Observe como as decisões são tomadas, como as marcas são construídas e como os negócios realmente funcionam.
Quem consegue extrair esse aprendizado estratégico leva uma bagagem extremamente poderosa para qualquer caminho que escolher no futuro, inclusive para construir algo próprio.
A trajetória da Michelle mostra algo que muitas vezes esquecemos quando falamos de carreira: experiência não é apenas aquilo que acumulamos, mas aquilo que conseguimos transformar em visão.
Ao longo de diferentes capítulos — agência, multinacional, Disney e agora consultoria — ela construiu algo que vai além de um currículo sólido. Construiu uma leitura estratégica de mercado, de marca e de posicionamento profissional.
Talvez por isso sua história dialogue tanto com o momento atual de muitos profissionais. Em um mundo onde as carreiras são cada vez menos lineares, saber traduzir experiência em valor se torna uma habilidade essencial.
Michelle, obrigada por compartilhar de forma tão aberta os bastidores dessa jornada. Sua história mostra que grandes trajetórias não são feitas apenas de cargos ou empresas marcantes, mas da capacidade de transformar cada fase em aprendizado e evolução.
Tenho certeza de que ainda veremos muitos profissionais sendo impactados pelo trabalho que você vem desenvolvendo ao ajudar pessoas a se posicionarem com mais clareza, confiança e intenção.
E para quem acompanha esta conversa, fica um convite à reflexão: em um mercado cada vez mais global e competitivo, talvez uma das competências mais valiosas seja justamente aprender a contar — e construir — a própria história profissional.
Carolina Melo Leitao
https://www.linkedin.com/in/carolinameloleitao
carolina.leitao@ictcarreiras.com

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.