Às vezes, uma conversa começa a ficar realmente interessante justamente quando ouvimos algo que não gostaríamos de ouvir sobre nós mesmos.
Por Flavia da Matta
Florida Review
21 de outubro de 2026
Gosto da ideia de uma boa conversa. Daquelas em que um assunto puxa outro e a gente sai com alguma coisa em que não tinha pensado. Acho curioso, porém, como essa disposição pode diminuir quando a novidade é uma observação sobre nós. A conversa continua, mas por dentro já estamos preparando a defesa.
Queremos trocar ideias, desde que ninguém tente trocar as nossas.
Basta alguém dizer “posso te falar uma coisa?” para dar vontade de responder que não, obrigada, já temos opiniões suficientes sobre nós mesmos. Se vier acompanhado de “não leva a mal”, então, já começamos a levar. A pessoa nem terminou, mas estamos prontos para esclarecer o equívoco.
Às vezes, o comentário nem é tão dramático. Uma amiga diz que você anda sumida. Seu marido comenta que não conseguiu terminar uma frase. Um colega sugere que seu jeito de resolver tudo sozinho esteja dificultando o trabalho dos outros. Pronto. A amiga cobra demais, o marido exagera, o colega não entende a sua função.
Pode ser. Mas será que é só isso?
O que o outro consegue enxergar
Fico pensando em quantas conversas acabam justamente onde poderiam começar a ficar interessantes. Na primeira contrariedade, deixamos de ouvir o comentário e passamos a examinar as credenciais de quem comentou. E o currículo, nessa hora, precisa ser impecável. Afinal, quem é ele para falar?
Alguém que convive conosco, talvez. O que não garante que tenha razão, mas oferece um ângulo ao qual nem sempre temos acesso. Nós conhecemos nossas intenções. O outro convive com os resultados. Posso estar tentando ajudar e acabar atropelando. Posso me considerar sincera e ter sido desnecessariamente dura. Entre o que quis fazer e o que chegou do outro lado, cabe uma conversa.
Claro que há críticas injustas, comentários cruéis e gente que usa “para o seu bem” com uma liberdade impressionante. Não é preciso acolher tudo. Mas seria conveniente demais colocar qualquer observação desconfortável nessa categoria.
Talvez o difícil seja ouvir coisa verdadeira de alguém que também erra. Ou receber uma observação válida numa embalagem pouco delicada. A pessoa poderia ter falado melhor? Poderia. Ainda assim, será que havia algo ali?
Ouvir não significa concordar
Um “por que você acha isso?” talvez nos leve mais longe do que a explicação que já estava pronta. E não precisamos decidir tudo naquela hora, muito menos transformar a conversa numa votação sobre quem é a melhor pessoa.
Conviver tem dessas pequenas inconveniências: as pessoas vêm com pontos de vista próprios e, aparentemente, pretendem usá-los. Até sobre nós. Uma ousadia.
E se o outro tiver razão? Não sobre tudo, não para sempre. Só sobre aquilo que acabamos de recusar tão depressa.
Talvez a gente continue discordando. Mas gosto de imaginar que, mais tarde, lavando uma xícara ou procurando a chave, aquela observação volte. Já sem a voz que nos irritou, sem a necessidade de responder. Só a ideia, fazendo algum sentido.
E quem sabe ainda dê tempo de voltar à conversa. Sem um discurso. Só aquela frase que custa um pouquinho, mas abre espaço:
“Fiquei pensando no que você falou.”
Flavia da Matta

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
