Lendo o artigo “As Careers Get Longer, Midcareer Work Needs to Change”, da pesquisadora
Lynda Gratton, publicado em maio de 2026, fui levada a refletir sobre uma realidade que
observo diariamente no meu trabalho com profissionais brasileiros que buscam oportunidades
no mercado americano.
Durante muitos anos, a carreira profissional seguia um roteiro relativamente previsível: estudar,
construir experiência, crescer dentro de uma organização, alcançar posições de liderança e,
eventualmente, se aposentar. Mas essa lógica já não representa a realidade da maioria dos
profissionais.
Hoje, é cada vez mais comum encontrarmos pessoas trabalhando até os 70 anos ou mais. Isso
significa que alguém aos 45 ou 50 anos não está encerrando sua trajetória profissional — está,
na verdade, entrando na segunda metade dela. E isso muda tudo. Recentemente, Gratton
destacou um fenômeno que tem chamado a atenção de grandes organizações: o maior índice
de desgaste profissional não está entre os jovens nem entre aqueles próximos da
aposentadoria. Está justamente entre profissionais na faixa dos 40 e 50 anos.
E faz sentido. É nessa fase que normalmente acumulamos as maiores responsabilidades da
vida. Temos desafios profissionais mais complexos, responsabilidades financeiras, filhos
crescendo, pais envelhecendo e uma constante necessidade de atualização em um mercado
que se transforma cada vez mais rápido. Ao mesmo tempo, é exatamente nesse período que
temos menos tempo para refletir sobre o futuro. Muitos dos profissionais que acompanho nos
Estados Unidos vivem essa realidade de forma ainda mais intensa. Chegam ao país depois de
anos construindo uma carreira sólida no Brasil. Foram líderes, especialistas, empreendedores
ou executivos. Possuem conhecimento, experiência e resultados comprovados.
Mas, ao iniciarem uma nova etapa em outro país, muitas vezes precisam reconstruir parte da
trajetória profissional, adaptar-se a uma nova cultura corporativa e reposicionar sua experiência
para um mercado diferente.
É nesse momento que surgem questionamentos importantes:
Será que estou na área certa? Vale a pena mudar de indústria? Quais habilidades preciso
desenvolver para continuar competitivo? Quero fazer exatamente o que fiz nos últimos 20 anos
ou existe um novo caminho profissional que faz mais sentido para mim? Segundo o estudo, a
principal tensão dessa fase não está relacionada à capacidade de entrega.
Os profissionais sabem trabalhar. Sabem gerar resultados. Sabem liderar equipes. O grande
desafio passa a ser outro: identidade. Quem sou eu profissionalmente neste momento da
minha vida?
O que ainda quero construir? Qual legado desejo deixar nos próximos anos? Talvez a maior
lição seja que a carreira moderna não pode mais ser construída apenas com resistência.
Durante muito tempo fomos ensinados a persistir, suportar e continuar. Mas uma carreira que
pode durar 50 ou 60 anos exige algo diferente. Exige sustentabilidade.
Sustentabilidade profissional significa criar espaço para reflexão, investir em aprendizado
contínuo, desenvolver novas competências e permitir ajustes de rota ao longo do caminho.
No mercado americano, vemos cada vez mais profissionais experientes assumindo novos
desafios, migrando para outras indústrias, atuando como consultores, empreendendo ou
construindo carreiras paralelas. Essas mudanças não representam fracasso. Representam
evolução. Representam adaptação. E adaptação sempre foi uma das competências mais
valiosas para quem deseja construir uma carreira duradoura.
Se você está na faixa dos 40, 50 ou 60 anos e sente que precisa repensar seus próximos
passos, talvez a pergunta não seja: “Como vou aguentar trabalhar por mais 20 anos?” Talvez a
pergunta correta seja: “Como posso construir os próximos 20 anos de forma mais alinhada com
quem me tornei?” Porque, na realidade atual, a meia-idade profissional não representa o
começo do fim.
Ela representa uma oportunidade de recalibrar a rota, redefinir prioridades e construir uma
trajetória ainda mais significativa.
E talvez seja justamente essa a fase mais estratégica de toda a carreira.
Artigo inspirado em “As Careers Get Longer, Midcareer Work Needs to Change”, de Lynda
Gratton, publicado em maio de 2026.
Carolina Melo Leitao
https://www.linkedin.com/in/carolinameloleitao/
carolina.leitao@ictcarreiras.com
@carolinaleitao.ict

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
