Quando o passado continua ocupando cargos de liderança no presente.
Há pessoas que contam a própria história da mesma forma que alguns países contam guerras antigas: com uma riqueza de detalhes impressionante, uma convicção inabalável sobre quem estava certo e quem estava errado e um investimento contínuo em garantir que o assunto jamais seja completamente encerrado.
O curioso é que raramente estamos falando da guerra em si.
Estamos falando das consequências.
Décadas depois, o conflito continua participando das reuniões.
Algumas pessoas falam de acontecimentos ocorridos há quinze ou vinte anos com a familiaridade de quem esteve lá ontem.
Não porque tenham boa memória.
Porque nunca foram embora.
E talvez seja justamente aí que a história se torne interessante.
O problema das narrativas antigas não é que sejam falsas.
Muitas vezes são perfeitamente verdadeiras.
O problema é que continuam sendo consultadas para responder perguntas que pertencem ao presente.
O antigo fracasso opina sobre novos projetos.
A antiga rejeição avalia novos relacionamentos.
O antigo sucesso continua tentando definir o tamanho das próximas ambições.
Sem perceber, passamos a entregar cargos de liderança a personagens que já não habitam a vida que estamos vivendo.
Eles conhecem tudo sobre o passado.
Mas quase nada sobre o futuro.
Talvez por isso algumas pessoas pareçam viver em constante repetição.
A vida muda.
As circunstâncias mudam.
Os personagens ao redor mudam.
Mas a interpretação permanece estranhamente fiel à versão original.
Como se a história tivesse parado de registrar acontecimentos e passado a produzir conclusões.
Existe algo confortável nisso.
Narrativas antigas oferecem explicações prontas.
Distribuem responsabilidades.
Protegem certezas.
E nos poupam do trabalho de reavaliar aquilo que acreditamos saber sobre nós mesmos.
O problema é que também ocupam espaço.
E espaço é um recurso finito.
Principalmente quando estamos tentando nos tornar alguém novo.
Talvez crescer tenha menos relação com construir uma identidade inédita e mais relação com reconhecer quando uma identidade antiga já cumpriu sua função.
Nem todo personagem precisa ser demitido.
Mas alguns certamente não deveriam continuar presidindo as reuniões.
Porque existe uma diferença importante entre honrar a própria história e continuar olhando o mundo através das lentes de uma versão antiga de si mesmo.
O passado costuma ser um excelente conselheiro.
Só não precisa participar do board.

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
