Por Ariela Tamagno, diretamente da Itália
Enquanto bilhões de pessoas acompanham a Copa do Mundo de 2026, outro campeonato acontece longe dos gramados: a disputa pela atenção global.
Durante décadas, grandes eventos esportivos foram vistos principalmente como entretenimento. Hoje, eles se tornaram instrumentos de política econômica, diplomacia e projeção internacional. A Copa do Mundo deixou de ser apenas futebol. Ela funciona como uma plataforma global de negócios, capaz de movimentar turismo, hotelaria, transporte, alimentação, tecnologia, segurança, mídia e consumo em escala internacional.
A edição de 2026, realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, confirma essa transformação. Estimativas econômicas apontam que o torneio deve gerar bilhões de dólares em impacto direto sobre os três países-sede, com o turismo estrangeiro como um dos principais motores desse movimento. A expectativa é de crescimento adicional no PIB durante os meses da competição, além de forte pressão sobre hotéis, deslocamentos internos, serviços e consumo nas cidades anfitriãs.
Nesse cenário, chama atenção a posição da Itália. Uma das maiores potências esportivas e culturais do mundo observa a Copa sem estar no centro da organização do evento. Mas isso não significa que o país esteja fora da disputa econômica. Pelo contrário. Enquanto a América do Norte utiliza a Copa para gerar um pico concentrado de visitantes, investimentos e visibilidade, a Itália joga outro tipo de partida: a da permanência.
A diferença entre esses dois modelos é relevante. Grandes eventos esportivos criam uma explosão temporária de fluxo econômico. São semanas de hotéis lotados, restaurantes cheios, ingressos disputados e cidades transformadas em vitrines mundiais. Já a Itália constrói sua força em um movimento menos barulhento, porém mais duradouro: o desejo constante de viver, estudar, investir, visitar e retornar ao país.
O turismo continua sendo um dos pilares mais fortes da economia italiana. A Europa deve registrar crescimento relevante nos gastos de visitantes internacionais em 2026, mesmo em um contexto de incerteza geopolítica, e a Itália permanece entre os destinos mais desejados do mundo. A força italiana não depende de algumas semanas de evento. Ela está no patrimônio histórico, na gastronomia, na moda, na cultura, na paisagem, na ancestralidade e na capacidade de transformar identidade em valor econômico.
Ao mesmo tempo, a Europa vive uma realidade muito diferente daquela de poucos anos atrás. A guerra em andamento no continente e as tensões no Oriente Médio continuam pressionando governos, empresas e famílias. Na Itália, o debate sobre defesa, energia, crescimento econômico e contas públicas voltou ao centro da agenda nacional. O próprio governo italiano tem discutido o aumento dos gastos com defesa em meio a uma economia de crescimento baixo e pressões fiscais relevantes.
Isso mostra que a economia global já não pode ser analisada apenas pela produção de bens ou pela força das exportações. Hoje, países competem também por pessoas. Competem por turistas, estudantes, profissionais qualificados, empreendedores, investidores, aposentados e famílias que desejam reconstruir a vida em outro lugar. A OCDE aponta que a disputa por talentos se tornou cada vez mais competitiva entre os países desenvolvidos, especialmente diante da escassez de mão de obra e do envelhecimento populacional.
É nesse ponto que a Itália possui uma vantagem difícil de copiar. Poucos países no mundo conseguem mobilizar uma diáspora tão numerosa e emocionalmente conectada. Milhões de descendentes italianos, espalhados pelas Américas e por outros continentes, continuam ligados ao país por sobrenomes, histórias familiares, memórias, documentos, viagens e projetos de retorno. Para essas pessoas, a Itália não é apenas um destino turístico. É uma origem.
Talvez esse seja o verdadeiro jogo econômico do século XXI. Enquanto a Copa do Mundo mostra a força dos grandes eventos na geração imediata de receita, a Itália revela o poder de uma marca-país construída ao longo de séculos. Uma marca que não se limita ao consumo rápido, mas desperta pertencimento, desejo de permanência e reconexão.
No fim, a pergunta não é apenas qual país levantará a taça. A pergunta maior é quais países conseguirão permanecer relevantes depois que os estádios estiverem vazios, os turistas voltarem para casa e as manchetes mudarem de assunto.
Porque as maiores vitórias econômicas nem sempre acontecem dentro de um campo. Muitas vezes, elas começam quando um país consegue convencer o mundo de que vale a pena voltar, investir e construir uma história ali.
Ariela Tamagno é especialista em cidadania italiana e fundadora da TMG Cidadania Italiana, com atuação entre Brasil e Itália. Também lidera os projetos Origine Italia e Italia Residence Management, voltados à mobilidade internacional e à reconexão com as origens italianas.
