Por Dra. Mônica Martellet
Farmacêutica Esteta | PhD em Biotecnologia em Saúde | CEO da Clínica Dra. Mônica Martellet Estética Avançada | Professora Universitária | Colunista da Florida Review Magazine (Miami)
Nos últimos anos, a tirzepatida, um agonista duplo dos receptores do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), revolucionou o tratamento da obesidade e das doenças metabólicas. Sua elevada eficácia na promoção da perda ponderal representa um marco no manejo clínico da obesidade, proporcionando importantes benefícios metabólicos e cardiovasculares. Paralelamente a esse avanço terapêutico, surgiu um novo desafio para a medicina estética: pacientes que, mesmo após procedimentos de harmonização facial tecnicamente bem executados, retornam ao consultório relatando perda precoce dos resultados, piora da flacidez e uma aparência facial visivelmente mais envelhecida. Esse fenômeno, popularmente conhecido como “Ozempic Face”, apesar da nomenclatura, não está relacionado exclusivamente à semaglutida, podendo ser observado em qualquer processo de emagrecimento acelerado, incluindo aquele induzido pela tirzepatida.
A primeira observação importante é que a tirzepatida não promove, até o momento, degradação direta dos preenchedores faciais nem acelera a metabolização do ácido hialurônico. A aparente redução da durabilidade dos procedimentos está relacionada, principalmente, às profundas modificações anatômicas decorrentes da rápida perda de peso. Em outras palavras, o preenchedor frequentemente permanece presente no tecido, porém a estrutura facial que lhe conferia sustentação foi significativamente remodelada.
O envelhecimento facial é resultado de alterações simultâneas da pele, dos compartimentos adiposos superficiais e profundos, dos ligamentos de retenção, da musculatura e da estrutura óssea facial. Quando ocorre uma perda ponderal acelerada, há redução significativa dos compartimentos de gordura da região malar, temporal, mandibular e periorbitária, responsáveis por conferir sustentação mecânica aos tecidos moles. Consequentemente, a pele passa a recobrir um volume muito menor, evidenciando sulcos, depressões, flacidez e perda do contorno facial. Assim, estruturas previamente equilibradas pela harmonização facial deixam de apresentar a mesma integração anatômica, produzindo a sensação de que o procedimento “desapareceu”, quando, na realidade, foi o suporte biológico que se modificou.
Sob o ponto de vista fisiológico, esse processo vai além da simples redução do tecido adiposo. Atualmente, o tecido adiposo facial é reconhecido como um órgão metabolicamente ativo, capaz de secretar adipocinas, fatores de crescimento, citocinas e diversas moléculas envolvidas na homeostase da matriz extracelular. Existe intensa comunicação entre adipócitos, fibroblastos, queratinócitos e células imunológicas, regulando continuamente a síntese de colágeno, elastina, ácido hialurônico e outros componentes fundamentais para a qualidade cutânea. Quando ocorre perda importante desse tecido adiposo, todo esse microambiente sofre alterações, comprometendo a sustentação da pele e acelerando a percepção clínica do envelhecimento facial.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é que a perda ponderal induzida pela tirzepatida não envolve exclusivamente gordura corporal. Estudos demonstram que parte da redução de peso pode ocorrer às custas da massa magra, especialmente quando não há adequada ingestão proteica e prática regular de exercícios físicos. A diminuição da musculatura facial e cervical reduz ainda mais o suporte dos tecidos, potencializando a flacidez e modificando o comportamento biomecânico da face. Dessa forma, mesmo preenchedores com elevada capacidade de sustentação passam a atuar em um ambiente estrutural completamente diferente daquele existente no momento da aplicação.
Essa nova realidade exige uma mudança importante no raciocínio clínico. Durante muitos anos, a harmonização facial foi conduzida predominantemente pela reposição volumétrica. Entretanto, pacientes em uso de tirzepatida necessitam de um gerenciamento facial muito mais amplo, fundamentado na fisiologia do envelhecimento e na remodelação tecidual. Antes de simplesmente adicionar mais ácido hialurônico, torna-se essencial avaliar se o paciente ainda se encontra em processo ativo de emagrecimento, qual foi a magnitude da perda dos compartimentos adiposos, o grau de flacidez ligamentar, a qualidade dérmica e a necessidade de estratégias regenerativas capazes de restaurar o equilíbrio biológico dos tecidos.
Nesse contexto, os bioestimuladores de colágeno, as tecnologias de indução de neocolagênese, os protocolos voltados à melhora da qualidade da pele e a cosmetologia regenerativa passam a exercer papel ainda mais relevante do que a simples reposição de volume. O objetivo deixa de ser preencher espaços e passa a reconstruir gradualmente um ambiente biológico capaz de sustentar resultados mais naturais e duradouros.
Talvez o maior ensinamento proporcionado pela popularização da tirzepatida seja justamente este: a durabilidade da harmonização facial não depende apenas da qualidade do produto utilizado ou da técnica de aplicação. Ela depende, principalmente, da estabilidade metabólica do paciente e da integridade de toda a arquitetura facial. Compreender a interação entre metabolismo, tecido adiposo, matriz extracelular e envelhecimento facial representa um diferencial clínico indispensável.
Referências
Barışkan H, et al. “Ozempic Face” in Plastic Surgery: A Systematic Review of the Literature on GLP-1 Receptor Agonist Mediated Weight Loss and Analysis of Public Perceptions. Aesthetic Surgery Journal. 2025.
Kılıç S. Facial aging after GLP-1 receptor agonist-induced weight loss: the emerging Ozempic face phenomenon. Journal of Diabetes & Metabolic Disorders. 2025.
American Academy of Dermatology Association. How can GLP-1 drugs affect my skin, hair, and nails? 2026.
GLP-1-Induced Weight Loss and the Face: Anatomical Mechanisms and Rationale for Collagen-Stimulating and Volumizing Aesthetic Treatments. Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology. 2026.
