Outro dia ouvi alguém mencionar um estudo sobre ambientes de trabalho. A conclusão era curiosa: uma única pessoa consistentemente negativa consegue reduzir o desempenho e o engajamento de uma equipe muito mais do que uma pessoa positiva consegue aumentá-los.
A negatividade é contagiosa.
Achei o dado interessante. Mas ele me deixou pensando em outra coisa.
Se reclamar faz tão mal… por que continuamos fazendo isso?
Talvez porque reclamar seja uma das ferramentas de conexão mais eficientes que nós, humanos, já inventamos.
Uma reclamação bem colocada pode entregar pertencimento, validação, atenção, um culpado conveniente para aquilo que nos incomoda, uma sensação de controle e, às vezes, até um breve alívio da responsabilidade de mudar alguma coisa.
Poucos comportamentos entregam tanto… cobrando tão pouco.
Basta um voo atrasar.
Alguém comenta:
“Isso é um absurdo.”
Em poucos minutos, desconhecidos já estão conversando como velhos conhecidos.
Eles ainda não sabem o nome uns dos outros. Não conhecem suas histórias.
Mas descobriram rapidamente aquilo que todos têm em comum: o motivo da indignação.
Talvez o verdadeiro poder da reclamação não esteja na reclamação.
Esteja na sensação de pertencimento que ela produz.
Compartilhar entusiasmo exige vulnerabilidade. Você precisa revelar o que admira, o que deseja, no que acredita.
Compartilhar uma reclamação exige apenas concordância.
É muito mais fácil.
O problema é que o cérebro adora atalhos.
Se reclamar sempre me rende acolhimento, atenção e companhia, ela deixa de ser um desabafo.
Vira estratégia.
Aos poucos, começamos a procurar defeitos antes de possibilidades. Escolhemos pessoas pela indignação compartilhada, e não pelos valores compartilhados. Criamos relações que dependem da existência permanente de um culpado. E, sem perceber, terceirizamos nossa capacidade de agir.
Talvez o maior risco da reclamação não seja o mau humor.
Seja o fato de que, quando construímos nossas relações em torno de um problema, a solução passa a representar uma ameaça.
Afinal…
se o problema desaparece…
sobre o que vamos conversar amanhã?

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
