Há sonhos que a gente sabe exatamente quando começaram. Outros vão crescendo tão silenciosamente dentro de nós que, quando finalmente acontecem, parecem ter estado ali desde sempre.
Lançar um livro sempre foi um sonho meu. Lançar um livro ao lado da minha mãe é uma dessas coisas que eu talvez nem imaginasse que pudesse acontecer tão cedo.
Nos próximos dias, nós duas lançaremos Os doces saudáveis do Papai Noel, o primeiro livro de uma trilogia infantil escrita por mim e por ela. E existe algo de muito bonito, e até difícil de explicar, em olhar para um livro pronto e encontrar nossos dois nomes na capa.
Minha mãe foi professora durante muitos anos. É pedagoga, especialista em Educação Especial e sempre teve na educação uma parte importante da sua vida. Foi a convivência com as crianças e, mais tarde, a chegada dos netos, Bento e João Vitor, que a aproximou ainda mais das histórias infantis e da vontade de escrever para elas.
Eu fui por outro caminho (talvez não tão diferente assim). Escolhi o Jornalismo, depois vieram o mestrado e o doutorado em Letras. Vieram a docência, os textos, as reportagens, as aulas, as colunas, os roteiros. Fiz das palavras uma profissão muito antes de perceber que, na verdade, elas já faziam parte de mim havia muito tempo.
Porque antes de aprender a escrever, eu aprendi a ler, e tenho certeza que essa é uma das maiores sortes da minha vida.
A literatura me ensinou muito antes que eu soubesse que aquilo também era uma forma de aprender. Os livros ampliaram o tamanho do mundo quando o meu mundo ainda era pequeno. Permitiram que eu conhecesse lugares onde nunca tinha estado, pessoas que jamais existiram, épocas que não vivi e sentimentos para os quais eu ainda nem tinha nome.
É essa uma das coisas mais fascinantes que a literatura faz conosco: ela nos empresta outras vidas sem que precisemos abandonar a nossa. Quem lê descobre muito cedo que o mundo não termina naquilo que consegue enxergar. E isso me parece imenso, especialmente para uma criança.
A literatura infantil às vezes é tratada como uma literatura menor, como se histórias destinadas às crianças fossem apenas distração, passatempo ou uma etapa anterior às leituras consideradas “importantes”. Eu penso justamente o contrário. Talvez estejam entre os livros mais importantes que alguém vai encontrar na vida, pois apresentam um mundo de possibilidades e não é apenas imaginação.
Quando uma criança acompanha uma personagem, ela começa a experimentar o lugar do outro. Quando espera o final de uma história, aprende sobre atenção. Quando pergunta por que alguém fez determinada coisa, começa a construir pensamento crítico. Quando pede “lê de novo?”, começa talvez uma das relações mais importantes da vida: a relação afetiva com a palavra.
E como mãe, confesso que tem algo que me comove e me toca mais ainda: um livro infantil quase nunca pertence somente à criança, ele é da família e de quem convive com ela. Existe alguém que segura aquele livro. Alguém que lê. Que muda a voz dos personagens. Que aponta uma figura. Que responde a uma pergunta no meio da página. Que talvez leia a mesma história pela décima, vigésima, quinquagésima vez.
Por isso, quando entregamos um livro a uma criança, estamos entregando também a possibilidade de criar memórias, mesmo que ela possa esquecer da história, ou sequer se recorde de algum personagem, mas a sensação de estar ouvindo aquela história no colo de alguém, essa ficará guardada para sempre!
Isso tudo tem um novo significado para mim. Sou filha de uma educadora e agora também sou mãe. E, entre essas duas pontas da minha vida, estão os livros, eles sempre estiveram presentes na minha vida.
Minha mãe escreveu este livro pela experiência de quem ensinou crianças e hoje observa os netos descobrirem o mundo. Eu escrevo atravessada por tudo o que a literatura fez comigo e pela experiência absolutamente transformadora de acompanhar Bento começar a descobrir o seu.
De alguma forma, Os doces saudáveis do Papai Noel nasceu exatamente nesse lugar: entre gerações, e isso faz com que esse lançamento se torne grandioso e emocionante.
Não é apenas meu primeiro livro infantil. Não é apenas o primeiro livro de uma trilogia. É uma obra que assino com a minha mãe e que um dia meu filho poderá pegar nas mãos e encontrar, lado a lado, os nossos nomes.
E mesmo que eu possa registrá-lo no Lattes, ele ficará numa prateleira bem diferente da minha vida
Passei muitos anos estudando palavras. Fiz delas objeto de pesquisa, profissão, ferramenta de comunicação. Continuo acreditando profundamente no poder que elas têm de construir reputações, transformar relações, abrir caminhos e mudar a forma como enxergamos o mundo.
Mas talvez eu esteja vivendo agora uma das demonstrações mais bonitas desse poder, porque eu pensei que realizaria apenas o sonho de publicar um livro, mas estou realizando algo muito maior: escrevendo, com a minha mãe, uma memória que poderá chegar ao meu filho.
E a muitas outras crianças também.
