Por Dra. Leticia Sangaletti
Eu sei: todo abismo já é, por definição, abissal.
A expressão é redundante, exagerada e provavelmente desagradaria aos defensores mais rigorosos da língua. Mas existem distâncias que não cabem na precisão do dicionário, pois precisam do excesso, já que dizê-la apenas uma vez não é suficiente para representar aquilo que sentimos.
Um abismo abissal não se mede apenas em metros ou quilômetros, ele aparece na distância entre aquilo que imaginávamos e o que encontramos. Entre o que alguém diz e aquilo que realmente faz. Entre os planos cuidadosamente elaborados e a vida que, sem pedir licença, resolve seguir outro caminho.
Há empresas que anunciam valores que não praticam. Profissionais que defendem ideias nas redes sociais e as abandonam na primeira oportunidade em que poderiam colocá-las em ação. Pessoas que falam sobre empatia, mas não sabem escutar. Que exaltam a importância da comunicação, mas desaparecem quando uma conversa se torna desconfortável. Que discursam sobre colaboração, embora tratem qualquer brilho alheio como uma ameaça.
Em toda parte, encontramos distâncias entre o discurso e a prática, talvez porque falar sobre quem desejamos ser seja muito mais fácil do que sustentar essa identidade nas escolhas cotidianas. As palavras aceitam quase tudo, mas a prática, não.
Nem sempre a maior decepção vem daquilo que fracassou, por vezes, ela nasce daquilo que prometeu ser uma coisa e se revelou outra. O problema é que demoramos a abandonar a imagem inicial. Continuamos nos relacionando com a promessa, mesmo quando a realidade já apresentou provas suficientes de que ela não será cumprida.
Mas nem tudo o que começa bonito consegue permanecer bonito. Algumas pessoas sabem chegar, mas não sabem ficar. Algumas ideias são excelentes no papel, mas não sobrevivem à execução. Algumas relações funcionam enquanto não exigem responsabilidade, reciprocidade ou profundidade.
E há, ainda, os abismos que moram dentro de nós. A distância entre a vida que imaginamos e aquela que conseguimos construir. Entre a coragem que aconselhamos aos outros e o medo que sentimos diante das próprias decisões. Entre quem fomos, quem somos e quem acreditávamos que seríamos a esta altura.
Esses acredito sejam os mais difíceis de atravessar, porque não podemos responsabilizar inteiramente o mundo por eles. É desconfortável reconhecer que também prometemos coisas que não cumprimos. Que adiamos projetos importantes. Que permanecemos em lugares pequenos depois de percebermos que já não cabíamos neles. Que, algumas vezes, usamos a falta de tempo para esconder a falta de prioridade — exatamente como fizeram conosco.
Somos muito atentos às incoerências alheias e, frequentemente, indulgentes com as nossas (que tal olharmos um pouco mais para o nosso nariz?)
Amadurecer seja uma forma aprender a olhar para essas distâncias sem transformar todas elas em tragédia. Alguns abismos são perdas, porém, outros são alertas (lembra que eu falei sobre os “quases”?). Nem toda distância precisa ser vencida e desistir de atravessar certos abismos não significa covardia, pode significar lucidez.
Também é preciso reconhecer que algumas distâncias não surgem de repente. Elas são construídas nos detalhes: uma conversa evitada, um compromisso adiado, uma responsabilidade transferida, uma ausência disfarçada de distração. Pequenos afastamentos que, quando percebidos em conjunto, revelam uma separação muito maior, e isso, para mim, indica que os grandes abismos raramente começam grandes.
Talvez por isso a coerência seja uma forma tão rara de presença. Ela exige que palavra, intenção e gesto caminhem na mesma direção. Não significa nunca mudar de ideia, falhar ou voltar atrás. Significa ter honestidade para reconhecer quando a realidade já não corresponde ao discurso. Há uma diferença enorme entre mudar de caminho e fingir que continuamos no mesmo lugar.
A questão talvez não seja evitar todos os abismos. Isso seria impossível. A questão é decidir quais merecem uma ponte, quais exigem um salto e diante de quais precisamos apenas parar, olhar para o outro lado e seguir em uma direção diferente.
Porque há distâncias que existem para ser atravessadas. E há abismos — abissais, redundantes e imensos — que aparecem para nos impedir de continuar caminhando rumo a lugares onde já não deveríamos chegar.
