Flavia da Matta
“Ah, mas eu nem tenho nada pra te dar de volta.”
Mais uma vez, ouvi aquilo de uma amiga querida. Ela nem tinha aberto o pacote, mas já estava preocupada com o presente que não havia comprado para mim.
“Eu não sabia que você ia me dar alguma coisa. Não precisava.”
Expliquei que tinha visto aquilo e lembrado dela, de uma conversa nossa, de uma coisa que achei que a deixaria feliz. Não era aniversário, Natal, nenhuma data que ela tivesse esquecido.
Eu só queria fazer um agrado.
Mas agora parecia que tinha criado um problema.
Sempre achei curioso como esse momento pode ficar complicado sem necessidade. Uma pessoa chega feliz porque encontrou alguma coisa para a outra. A outra começa a se justificar porque não teve a mesma ideia. E lá estamos nós, tentando resolver uma situação que deveria ter sido boa para as duas.
Lembrei dessa história quando li um estudo publicado em 2018 no Journal of Economic Psychology. O título me chamou a atenção: ansiedade de reciprocidade. Os pesquisadores investigaram por que receber um benefício pode provocar mais desconforto em algumas pessoas do que em outras.
Nos experimentos, realizados em situações de consumo, quem apresentava mais dessa ansiedade tendia a evitar favores e demonstrava maior urgência em retribuí-los. A gentileza oferecida por uma empresa podia, portanto, produzir um efeito diferente do esperado: em vez de agradar, deixava o cliente preocupado com o que teria de fazer em troca.
O estudo tratava de consumidores. Eu, naturalmente, pensei na minha amiga.
Quando dou um presente, quero que a pessoa goste, fique feliz e, principalmente, se sinta lembrada. Gosto dessa possibilidade de dizer “prestei atenção em você” sem precisar fazer um discurso.
Por isso, quando a primeira reação é a preocupação com o que me dar de volta, tenho vontade de pedir:
Por isso, quando a primeira reação é a preocupação com o que me dar de volta, tenho vontade de pedir:
“Abre primeiro. Depois a gente conversa sobre essa dívida que você acha que acabou de adquirir.”
Mas talvez seja justamente aí que esteja a dificuldade. A pessoa pode estar agradecida e desconfortável ao mesmo tempo. Gostou de ter sido lembrada, mas não sabe muito bem o que fazer com a sensação de que agora deve alguma coisa.
Nas pesquisas sobre o sentimento de dívida, aparecem tanto a culpa pelo trabalho que demos ao outro quanto a obrigação de compensá-lo. E, pensando nisso, aquele “não precisava” pode ganhar outro sentido. Talvez a pessoa esteja tentando dizer que não precisava se preocupar, gastar ou ter trabalho por ela.
Retribuir, claro, faz parte das relações. Há prazer em convidar para um almoço, escolher outro presente ou encontrar uma maneira de demonstrar carinho. A reciprocidade também é uma das formas pelas quais o afeto circula.
O que me chama a atenção é a urgência.
Mal recebemos e já precisamos providenciar alguma coisa para voltar a ficar à vontade.
É verdade que há quem dê esperando receber. Pessoas que oferecem alguma coisa e, mais tarde, apresentam a conta na conhecida frase: “Depois de tudo o que fiz por você.” Nesse caso, talvez nunca tenha sido exatamente um presente. Era um acordo, só que uma das partes não sabia.
Ainda assim, não temos como resolver antecipadamente todas as possíveis intenções de quem oferece. Naquele momento, diante de um pacote, um almoço ou uma gentileza, talvez a única resposta necessária seja agradecer. Se a cobrança vier depois, ela dirá mais sobre quem deu do que sobre uma dívida que deixamos de pagar.
Porque também existem os presentes que vieram simplesmente porque alguém passou por uma vitrine e se lembrou de uma conversa. Sem cobrança, sem ocasião especial, sem a expectativa de receber outro pacote na semana seguinte.
Fico pensando se, nessa pressa de retribuir, às vezes não acabamos passando rápido demais pela melhor parte: alguém pensou em nós quando nem estávamos por perto.
Antes de procurar o que dar em troca, talvez seja bom lembrar que eu já recebi a minha parte: a alegria de encontrar alguma coisa e, naquele instante, pensar em você.
Referências conceituais
- Xiong, X., Guo, S., Gu, L., Huang, R. & Zhou, X. (2018). “Reciprocity anxiety: Individual differences in feeling discomfort in reciprocity situations.” Journal of Economic Psychology, 67, 149–161. DOI: 10.1016/j.joep.2018.05.007.
- Greenberg, M. S. (1980). “A Theory of Indebtedness.” In Social Exchange: Advances in Theory and Research. Springer. DOI: 10.1007/978-1-4613-3087-5_1.
- Gao, X. et al. (2023). “The psychological, computational, and neural foundations of indebtedness.” Nature Communications, 14, 8115. DOI: 10.1038/s41467-023-44286-9.

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
