Por Dra. Mônica Martellet
Farmacêutica Esteta | PhD em Biotecnologia em Saúde
CEO da Clínica Dra. Mônica Martellet Estética Avançada
Professora Universitária e Coordenadora de Pós-graduação em Estética Clínica
Colunista da Florida Review Magazine, Miami
Por tempos, falar em bactérias na pele esteve quase automaticamente associado a contaminação, acne ou doenças dermatológicas. Hoje, a ciência nos obriga a rever esse conceito. A superfície cutânea abriga um ecossistema complexo de microrganismos que participa da manutenção da barreira, da resposta imunológica e da própria homeostase da pele. É nesse cenário que os pós-bióticos começam a ocupar um espaço cada vez mais interessante dentro da cosmetologia.
Mas existe uma diferença importante entre tendência de mercado e conceito científico.
De acordo com o consenso da International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics, ISAPP, um pós-biótico é uma preparação contendo microrganismos inanimados e/ou seus componentes capaz de proporcionar benefício à saúde do hospedeiro. Isso significa que não estamos simplesmente falando de “bactérias mortas” ou de qualquer metabólito produzido por uma bactéria. Para que o termo seja utilizado de maneira cientificamente adequada, existe a necessidade de uma preparação microbiana inativada, ou de seus componentes, associada a um benefício demonstrado. Metabólitos microbianos purificados, isoladamente, não atendem à definição estabelecida pelo consenso.
Essa diferenciação é especialmente importante na indústria cosmética, onde palavras como probiótico, prebiótico, fermentado e pós-biótico muitas vezes aparecem como se fossem sinônimos.
Os probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados adequadamente, conferem benefício ao hospedeiro. Os prebióticos funcionam como substratos seletivamente utilizados pelos microrganismos e capazes de produzir benefício. Já os pós-bióticos não dependem da manutenção de microrganismos vivos dentro do produto.
E isso representa uma vantagem farmacotécnica importante.
Manter microrganismos vivos em uma formulação cosmética é complexo. Conservantes, atividade de água, temperatura, pH, armazenamento e interação com outros componentes da formulação podem comprometer sua viabilidade. Os pós-bióticos eliminam parte dessa dificuldade porque os microrganismos utilizados já foram deliberadamente inativados. Essa característica pode favorecer estabilidade, padronização e incorporação em diferentes sistemas cosméticos.
Mas talvez o aspecto mais fascinante esteja na maneira como essas estruturas podem conversar com a pele.
A pele reconhece sinais microbianos. A pele não é simplesmente uma barreira física. Queratinócitos e células do sistema imunológico apresentam mecanismos capazes de reconhecer estruturas provenientes de microrganismos.
Componentes celulares microbianos podem atuar como sinais biológicos e participar da interação entre microbiota, barreira cutânea e imunidade. Portanto, para gerar uma resposta biológica, um microrganismo não precisa necessariamente estar vivo.
Essa percepção muda completamente a maneira como pensamos a cosmetologia baseada no microbioma.
O objetivo deixa de ser simplesmente “colocar bactérias boas sobre a pele” e passa a ser compreender quais sinais derivados desses microrganismos podem contribuir para um ambiente cutâneo mais equilibrado.
Preparações pós-bióticas podem conter diferentes componentes provenientes das células microbianas e, dependendo da cepa, do método de cultivo, do processo de inativação e da composição final, apresentar atividades biológicas distintas. Por isso, falar apenas que um cosmético “contém pós-bióticos” diz muito pouco sobre sua real eficácia.
A identidade do microrganismo, o processo tecnológico utilizado e, principalmente, a demonstração do benefício são fundamentais.
Uma das áreas mais interessantes de investigação envolve a relação entre pós-bióticos e homeostase da barreira cutânea.
Quando a barreira está comprometida, ocorre maior perda transepidérmica de água e maior susceptibilidade a agentes externos. Paralelamente, alterações na composição e na organização da microbiota podem acompanhar diferentes estados de desequilíbrio cutâneo.
É justamente nessa interface entre barreira, microbioma e sistema imunológico que os pós-bióticos despertam interesse.
Estudos clínicos avaliados em uma revisão recente de cosmecêuticos contendo cepas bem caracterizadas de probióticos ou pós-bióticos encontraram resultados relacionados à manutenção da hidratação, integridade epitelial, melhora da luminosidade, redução da profundidade de rugas e alterações favoráveis na microbiota comensal. Entretanto, os próprios autores destacam que ainda precisamos ampliar a qualidade e a quantidade das evidências clínicas.
Portanto, não devemos enxergar os pós-bióticos como uma solução milagrosa, mas como uma nova ferramenta biotecnológica dentro do cuidado cutâneo. Uma cosmetologia que começa a olhar para o ecossistema.
Durante décadas, grande parte da cosmetologia foi construída a partir de uma lógica relativamente simples: identificar uma alteração e procurar um ativo capaz de combatê-la.
Oleosidade? Reduzimos o sebo.
Pigmentação? Inibimos etapas da melanogênese.
Envelhecimento? Estimulamos colágeno e combatemos espécies reativas.
Essa lógica continua sendo importante, mas o conhecimento atual sobre o microbioma acrescenta uma nova dimensão: a pele precisa ser interpretada como um ecossistema.
Não basta pensar somente na célula isoladamente. Precisamos considerar barreira, microbiota, mediadores inflamatórios e comunicação celular como elementos de um mesmo sistema. É nesse ponto que os pós-bióticos se tornam particularmente interessantes.
Eles representam uma mudança de raciocínio. Em vez de introduzir necessariamente um organismo vivo, utilizamos componentes microbianos biologicamente reconhecíveis buscando modular determinadas respostas do hospedeiro.
O consenso científico estabelece que o benefício deve ser demonstrado no hospedeiro-alvo para que uma preparação seja considerada pós-biótica. Portanto, a presença de um ingrediente de origem microbiana não garante automaticamente todos os benefícios frequentemente associados ao termo.
A tendência é que a próxima geração de dermocosméticos avance justamente na direção da especificidade: cepas identificadas, processos de inativação padronizados, mecanismos de ação mais bem caracterizados e estudos clínicos capazes de demonstrar quais preparações realmente funcionam para determinadas condições cutâneas.
Referências
SALMINEN, S. et al. The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics (ISAPP) consensus statement on the definition and scope of postbiotics. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, v. 18, p. 649–667, 2021.
VINDEROLA, G.; SANDERS, M. E.; SALMINEN, S. The Concept of Postbiotics. Foods, v. 11, n. 8, 1077, 2022.
Cosmeceuticals: A Review of Clinical Studies Claiming to Contain Specific, Well-Characterized Strains of Probiotics or Postbiotics. 2024.
