Especialistas avaliam que as eleições de 2026 nos dois países podem limitar a possibilidade de compromissos comerciais de longo prazo, enquanto o diálogo bilateral continua e empresas buscam alternativas diante do impacto das tarifas.
As relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos atravessam um período de negociações marcado pela busca de soluções para reduzir as tensões provocadas pelas tarifas americanas aplicadas a produtos brasileiros. No entanto, o calendário político de 2026 pode se tornar um fator determinante para o ritmo e o alcance de um eventual acordo entre os dois países.
Essa foi uma das principais avaliações apresentadas durante o evento “Tarifas e Comércio Exterior: Impactos, Desafios e Oportunidades”, organizado pela Association of Brazilian Professionals in Logistics (ABPL) e pelo Ouribank, com apoio institucional do Consulado-Geral do Brasil em Miami.
Segundo especialistas reunidos no encontro, embora as conversas entre Brasília e Washington continuem, a proximidade de importantes processos eleitorais pode dificultar a construção de um acordo comercial definitivo antes que o cenário político de 2027 esteja mais claro.
O Brasil realizará eleições gerais em outubro de 2026, enquanto os Estados Unidos terão suas eleições de meio de mandato em novembro. Nesse contexto, decisões que envolvam compromissos econômicos e comerciais de longo prazo podem ganhar uma dimensão política adicional.
O diálogo continua

Apesar das incertezas, os participantes destacaram que a manutenção dos canais diplomáticos representa um passo importante para evitar uma escalada maior das tensões comerciais.
Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e participante das articulações da delegação brasileira que mantém interlocução com autoridades americanas, avaliou que o recente contato entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump contribuiu para reduzir a tensão e possibilitou a retomada das negociações.
“É claro que o recente contato telefônico entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump ajudou a reduzir a temperatura da crise e possibilitou a retomada das negociações, mas as decisões mais importantes terão de esperar”, afirmou Barral durante o encontro.
Segundo o ex-secretário, existe ainda a expectativa de um encontro entre os dois presidentes durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o que poderá representar uma nova oportunidade para o avanço do diálogo bilateral.
A continuidade das conversas, entretanto, não significa necessariamente que um acordo esteja próximo. Negociações comerciais internacionais normalmente envolvem interesses de diversos setores, além de questões relacionadas à competitividade, acesso a mercados, proteção de indústrias nacionais e política interna.
Impacto vai além das tarifas

Para empresas que operam entre Brasil e Estados Unidos, a incerteza comercial produz consequências que vão além do percentual cobrado nas tarifas.
Importadores e exportadores precisam considerar os efeitos sobre custos logísticos, fluxo de caixa, formação de preços, contratos internacionais e planejamento de investimentos. Dependendo do setor, um aumento de custos pode ser parcialmente absorvido pelas empresas, repassado aos consumidores ou provocar uma reorganização das cadeias de suprimentos.
Por esse motivo, logística e financiamento também ocuparam espaço importante no debate realizado em Miami.

O encontro coincidiu com a celebração do 10º aniversário da ABPL, organização que reúne profissionais brasileiros ligados ao setor logístico e ao comércio internacional.
Durante o evento, o Ouribank também anunciou a ampliação de até 50% nos prazos de financiamento de frete marítimo e aéreo, iniciativa apresentada como parte do processo de internacionalização da instituição financeira.
A medida evidencia outro aspecto do atual cenário: enquanto governos negociam soluções diplomáticas, empresas e instituições financeiras procuram mecanismos para administrar os efeitos imediatos de um ambiente comercial mais incerto.
2026 como um ano de transição
O calendário eleitoral adiciona uma variável importante às relações entre as duas maiores economias do continente americano.
No Brasil, as eleições gerais definirão a Presidência da República, governos estaduais e uma nova composição do Congresso Nacional. Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato determinarão toda a composição da Câmara dos Representantes e parte do Senado, com potencial para alterar o equilíbrio político em Washington.

Por isso, segundo a avaliação apresentada por especialistas durante o evento, os dois governos podem optar por preservar o diálogo e buscar soluções pontuais nos próximos meses, deixando negociações estruturais ou compromissos de maior alcance para quando houver maior clareza sobre o cenário político de 2027.
Isso não significa necessariamente uma paralisação das conversas. Pelo contrário, negociações técnicas, exceções setoriais, revisões tarifárias e medidas específicas podem continuar avançando mesmo durante um período eleitoral.
Para empresas brasileiras e americanas, o desafio será acompanhar essas negociações enquanto se preparam para diferentes cenários.
Em um contexto no qual política, comércio e logística estão cada vez mais interligados, a relação entre Brasil e Estados Unidos continuará sendo acompanhada de perto. O resultado das negociações dependerá não apenas das conversas diplomáticas atuais, mas também das prioridades econômicas e políticas que emergirem das urnas nos dois países.
