Quando uma pessoa perde o emprego, uma das primeiras recomendações que recebe é atualizar o currículo e começar a procurar uma nova oportunidade. É uma orientação importante, mas que nem sempre considera tudo o que acabou de acontecer. Antes de se apresentar ao mercado, esse profissional pode estar tentando compreender uma decisão que não esperava, reorganizar sua vida financeira e lidar com a ausência de uma rotina que, durante anos, deu estrutura aos seus dias.
Como uma profissional de outplacement, sempre estudando sobre o tema, encontrei uma expressão que me chamou a atenção: tanatologia laboral. O termo aparece em discussões sobre o acolhimento das perdas relacionadas ao trabalho e convida a olhar para uma dimensão que merece mais espaço nas conversas sobre carreira: o luto que pode acompanhar o encerramento de um ciclo profissional.
Afinal, o que uma pessoa perde quando perde o emprego? A resposta pode ir muito além do salário. Existem as relações construídas, os projetos que ficaram pelo caminho, o sentimento de pertencimento e a posição que ela ocupava naquele ambiente. Para quem passou 15, 20 ou 25 anos na mesma organização, sair pode significar também se perguntar: “Quem sou eu profissionalmente fora desta empresa?”. E este é um tema recorrente com meus clientes, onde temos que conversar sobre a identidade de cada um deles. Quem são eles, mesmo não tendo o nome da empresa como sobrenome.
Essa pergunta ajuda a entender por que a transição exige mais do que um bom currículo. Um profissional pode ter uma trajetória sólida e, ainda assim, sentir dificuldade para reconhecer seu valor depois de um desligamento. Pode conhecer profundamente o negócio em que atuava, mas estar há muitos anos sem participar de uma entrevista. Pode ter liderado equipes e tomado decisões importantes, mas sentir insegurança ao precisar contar sua própria história.
É nesse contexto que o outplacement tem um papel relevante. Trata-se de um processo estruturado de apoio à transição de carreira, geralmente oferecido pela empresa ao profissional desligado. Seu objetivo é ajudá-lo a compreender suas possibilidades, preparar-se para o mercado e conduzir a busca por uma nova oportunidade. O serviço oferece orientação e ferramentas; a contratação depende das oportunidades e dos processos seletivos.
No nosso trabalho de orientação de carreira, começamos pela compreensão da trajetória e do momento que a pessoa está vivendo. Quais competências desenvolveu? Que resultados entregou? O que deseja preservar na próxima experiência? O que precisa mudar? Essas respostas ajudam a construir uma direção, para que a busca tenha critérios e faça sentido para aquele profissional.
A partir daí, trabalhamos o posicionamento, o currículo, o LinkedIn e a maneira de apresentar experiências e resultados. Mapeamos oportunidades, organizamos a busca, desenvolvemos estratégias de networking e preparamos o profissional para entrevistas. Também acompanhamos a avaliação das propostas, considerando responsabilidades, cultura, liderança e perspectivas de desenvolvimento.
Para quem busca uma recolocação nos Estados Unidos, esse trabalho inclui a adaptação da comunicação ao contexto em que pretende atuar. É preciso saber explicar sua experiência com clareza, selecionar exemplos relevantes para a posição e demonstrar como suas competências podem contribuir para o negócio. Uma carreira construída em outro país tem valor, mas esse valor precisa ser compreendido por quem está contratando.
Ao longo desse processo, a dimensão emocional merece atenção. Às vezes, a dificuldade para responder a uma pergunta sobre a saída da empresa está ligada ao quanto aquela experiência ainda dói. Em outros casos, o profissional se candidata a qualquer vaga porque sente que precisa recuperar rapidamente a segurança perdida. Escutar essas questões ajuda a orientar escolhas mais conscientes.
A reflexão trazida pela tanatologia laboral nos lembra que reconhecer uma perda faz parte da transição. Isso não significa que toda pessoa desligada viverá um luto intenso ou que precise esperar o sofrimento desaparecer para agir. A reorganização emocional e a busca por trabalho podem caminhar juntas, respeitando o momento e as necessidades de cada um. Quando necessário, o apoio psicológico especializado pode complementar a orientação profissional.
Para as empresas, oferecer outplacement representa uma forma concreta de cuidado no encerramento da relação de trabalho. A decisão de desligar pode ser necessária, mas sua condução merece respeito pela história de quem contribuiu para a organização. Uma conversa clara, uma comunicação digna e um apoio consistente à transição fazem diferença em um momento de vulnerabilidade.
Para o profissional, fica uma lembrança importante: o vínculo com uma empresa pode terminar, mas as competências, os aprendizados e as contribuições construídas ao longo da carreira continuam fazendo parte de sua trajetória. Recuperar essa percepção pode levar tempo. Ter orientação durante esse percurso ajuda a transformar a experiência acumulada em possibilidades para o futuro.
Talvez seja essa a pergunta que precisamos fazer com mais frequência diante de um desligamento: “Como podemos ajudar você a dar o próximo passo?” O outplacement dá forma prática a essa pergunta, reconhecendo que uma transição profissional envolve uma pessoa inteira, com história, relações, responsabilidades e expectativas para o que vem depois.
Carolina Melo Leitao

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
