Por Dra. Leticia Sangaletti
Investir em relações, projetos e trabalhos muitas vezes exigem um voto de confiança e uma aposta, que podem, por vezes, ter resultados não positivos quanto gostaríamos e gerar questionamentos nenhum pouco agradáveis.
Por isso hoje eu vim responder a uma pergunta que já ouvi de diferentes formas: “Como uma mulher empoderada, inteligente, com tanto conhecimento, deixou isso acontecer?”
E acredito que a resposta é mais simples do que possa parecer e possivelmente mais difícil de aceitar: porque somos humanas.
Porque passamos por momentos de vulnerabilidade, acreditamos nas pessoas, confiamos e nem sempre conseguimos enxergar uma situação com a clareza de quem está olhando de fora.
Aos julgadores de plantão, isso acontece na vida pessoal, mas também na profissional. A gente pode ter estudo, experiência, conhecimento, autonomia, uma trajetória inteira construída e, ainda assim, ser enganada, manipulada, desrespeitada ou permanecer em uma situação por mais tempo do que deveria.
E isso não apaga tudo o que veio antes, nem transforma uma mulher inteligente em burra, tampouco confiança em ignorância.
O que me incomoda nessa pergunta é que ela parece curiosidade, mas carrega julgamento. Em vez de questionar quem mentiu, quem manipulou, quem quebrou a confiança ou quem ultrapassou limites, a pergunta se volta para a mulher. E, de repente, uma trajetória inteira é reduzida a uma escolha considerada errada pelos outros.
Tudo o que aquela mulher estudou, construiu, conquistou e enfrentou parece perder valor porque, em algum momento, ela acreditou em alguém ou não conseguiu sair de uma situação imediatamente.
Como se ser empoderada significasse nunca errar, ser inteligente significasse nunca confiar na pessoa errada, e como se mulheres fortes precisassem viver o tempo inteiro em estado de alerta.
Mas não é assim, caros amigos e amigas. Venho lhes contar que empoderamento não é invulnerabilidade, que conhecimento não é uma armadura. Muito pelo contrário. Inteligência não impede dor, medo, afeto, dependência emocional, esperança ou desejo de que as coisas deem certo.
Mulheres inteligentes, independentes e fortes também acreditam em promessas, sentem medo, também podem se perder dentro de uma relação, de uma sociedade, de um trabalho ou de uma situação que foi mudando aos poucos.
Às vezes, para quem está de fora, tudo parece muito óbvio. Porém, quem está vivendo não recebe a história completa de uma vez. Vai percebendo em partes, tentando entender, justificando, esperando. Vai acreditando que aquilo pode mudar.
Isso não é burrice. É simplesmente ser humano.
E se a pergunta fosse porque ainda colocamos sobre a mulher a responsabilidade de prever, evitar e impedir tudo o que outra pessoa decidiu fazer contra ela.
Por que a inteligência dela é questionada, mas a conduta de quem enganou nem sempre recebe o mesmo peso? Por que um momento de vulnerabilidade parece ter força suficiente para apagar uma vida inteira de coragem?
Eu não acredito que tenha. E nenhuma vulnerabilidade tem o direito de diminuir toda uma trajetória.
