O jantar estava bom. A conversa passava de uma ponta à outra da mesa, as histórias se misturavam, ninguém parecia com pressa de ir embora. Até que ouvi uma frase conhecida:
“Me desculpa, mas eu sou assim e acabou.”
Mais uma vez, esse amigo havia feito um comentário inconveniente. E, antes que alguém pudesse dizer muita coisa, já estava explicando por que não pretendia rever o que tinha dito.
Conhecíamos a sequência. O constrangimento, a tentativa de mudar de assunto, o esforço coletivo para a noite continuar agradável. Cada um cedia um pouco de espaço para acomodar o jeito dele. Até a pessoa atingida parecia ter que colaborar.
O “me desculpa” estava ali, mas não deixava muita abertura para uma resposta.
Já cheguei a perguntar a ele: “Tudo bem, você é assim. Mas e o direito do outro de também ser como é?”
Porque, naquela mesa, a personalidade dele parecia ter preferência.
“Eu sou assim” pode descrever uma característica. Também pode encerrar qualquer possibilidade de examiná-la. A conversa começou com algo que a pessoa fez e, de repente, estamos discutindo o direito que ela tem de existir exatamente como é.
É uma mudança de assunto bastante conveniente.
Na psicologia, uma das maneiras de compreender essa rigidez é observar o apego à história que contamos sobre nós mesmos. “Sempre fui direto.” “Nunca tive paciência.” “Não tenho filtro.” A descrição vai ganhando autoridade até parecer uma sentença. Agir de outro jeito seria quase uma traição à própria identidade.
Mas desde quando desenvolver uma habilidade significa deixar de ser quem somos?
Também existe uma diferença entre não precisar da aprovação dos outros e não considerar os outros. Quando a hostilidade e a desconsideração se tornam um padrão, podemos pensar em traços de antagonismo. Não se trata de diagnosticar alguém durante a sobremesa. Trata-se de perceber que independência e indiferença ao impacto que causamos são coisas diferentes.
Você não precisa agradar a mesa inteira. Mas isso não transforma a mesa inteira em plateia obrigatória da sua falta de cuidado.
E há a franqueza, essa qualidade tão frequentemente convocada para defender comentários que ninguém pediu.
Ser assertivo é conseguir expressar uma opinião, uma necessidade ou um limite mantendo o respeito pelo outro. Cabe um “não”. Cabe discordar. Cabe uma conversa desconfortável. O que não vem incluído é o direito automático de humilhar e depois chamar a reação alheia de sensibilidade excessiva.
Talvez a pergunta mais interessante venha depois da frase.
Quando alguém diz que foi ferido, ainda existe curiosidade para entender o que aconteceu? Ou o “eu sou assim” já encerrou o expediente?
Não precisamos presumir que toda grosseria esconde uma insegurança profunda. Às vezes, não sabemos o motivo. Podemos, porém, observar a disposição de reconhecer o efeito e fazer alguma coisa a respeito.
E vale prestar atenção às nossas próprias versões dessa desculpa. Talvez menos barulhentas, mais educadas, perfeitamente razoáveis aos nossos ouvidos.
“Eu sou assim” pode ser um começo honesto de conversa.
O problema é o “e pronto”.
Porque, quando eu declaro que não vou mudar nada, posso estar deixando uma tarefa bastante grande para quem fica: mudar tudo o que for necessário para continuar perto de mim.
Eu sou assim.
E quem convive comigo tem o direito de ser como?

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
